Diário de viagem

Havia à disposição dos estudantes estrangeiros um belo casarão ali perto. Era conhecido como Centre Libre, ricamente instalado com duas imensas cozinhas, salão de jogos, vários banheiros, biblioteca e equipamentos eletrônicos de última linha. Nas cozinhas, havia grandes armários divididos em pequenos espaços onde os usuários armazenavam açúcar, sal, manteiga, biscoitos e enlatados. Não tinham fechadura, suas portas trancavam ao leve toque de um ímã. Cada pessoa dispunha de um desses espaços e, muitas vezes, pude presenciar estudantes europeus de outros países interromperem o preparo da comida a fim de comprar, por exemplo, o sal ou azeite que acabara e, por esquecimento, não fora reposto. Impressionava-me que nenhum deles se sentisse à vontade para abrir a portinha ao lado e lançar mão daquilo de que estivessem necessitando.
 
Envergonhava-me saber que os meus anfitriões, brasileiros, não fizessem o mesmo. Eu não tinha lugar para colocar as mãos ao ver um deles abrir as portinhas, uma a uma, até encontrar o que procurava para preparar o lanche. Hoje, corre mundo e faz sucesso com uma empresa de turismo. 
 
A correção do povo suíço, nesse aspecto, é algo realmente impressionante. Certa vez, para citar um exemplo, visitando com um amigo friburguense um ponto turístico da cidade, deparei com uma objetiva de uma máquina fotográfica, pelo visto sofisticada, abandonada sobre uma mureta. Como não houvesse ninguém por perto (na motivação de encontrar seu dono), tomei-a nas mãos, a um tempo surpreso e curioso, pelo que fui de imediato repreendido: – "Não toque, o proprietário haverá de voltar à sua procura!"
 
Aos poucos, no convívio de uma realidade tão diferente daquela a que estamos habituados, foi ficando mais claro para mim o conceito do que seja a educação e do quanto esse valor é importante na vida de um povo. Das minhas impressões, um amigo discordava, alegando que os bancos suíços constituem o destino de tanto dinheiro roubado mundo afora. Mas voltemos ao que dizia.
 
Intrigava-me que os ônibus não tivessem o que no Brasil chamamos 'trocador', aquele sujeito encarregado de receber os tíquetes (ou o valor da passagem), os quais são adquiridos em cada ponto com a simples inserção de uma moeda. Assim, não agindo com honestidade, o usuário pode se deslocar, gratuitamente, o que via muitos brasileiros fazerem.
 
Nas bancas de revista, que mais adequado seria chamar de pontos de venda de revistas e jornais, posto que não ofertam a imensa variedade das nossas, no Brasil, faz-se o mesmo que aos tíquetes de ônibus, com a diferença de que o acesso aos exemplares é absolutamente livre. Deixa-se a moeda, leva-se o jornal ou a revista. Meus anfitriões estavam sempre em dia com as notícias e os acontecimentos do mundo. Sem custos, é bom lembrar.
 
Naquele tempo era chocante para os turistas latinos encontrar tantos autosserviços para o que quer que fosse. Quando escrevo estas memórias, felizmente, muitos estão à disposição dos brasileiros em qualquer grande centro. Não vulneráveis quanto o suíços, é importante frisar, mas confiados à honestidade e à retidão de quem deles necessite.
 
A Suíça é, como disse, uma casa de bonecas. Nenhum país que conheci é tão rico quanto esse em beleza, com suas montanhas cobertas de neve, suas simpáticas estações de esqui, seus chalés de cores vibrantes, suas instituições culturais e suas muitas cidades medievais. Friburgo, a cidade em que estou à altura dessas memórias, é uma delas.
 
Fundada por volta de 1157, esta bela cidade está situada às margens do rio Sarine. Aqui, fala-se indistintamente o alemão ou o francês, mas é esta a língua dominante. Nas universidades, contudo, o alemão e o francês são recorrentes e, em algumas, o italiano, a terceira língua oficial do país. Além do romanche, falado na Suíça oriental.
 
A poucos minutos de Lausanne e Berna, em viagem de trem, a que ia com alguma frequência durante os meses de minha permanência na Suíça, Friburgo destaca-se como atração turística europeia pelo seu centro histórico medieval, totalmente preservado. A sua catedral é exuberantemente bela e sua arquitetura gótica anuncia-se à distância com sua torre de mais de setenta metros.
 
Os dois meses e meio, três meses, que passo em Friburgo assinalam as menores temperaturas em cinquenta anos. O frio é inclemente e neva com freqüência, o que, curiosamente, torna a baixíssima temperatura um pouco mais suportável. Coberta de neve, no entanto, a cidade é ainda mais bonita.
           

Dói e revolta

Num tempo em que se fala tanto em Direitos Humanos (assim, com maiúsculas), mesmo quando se trata de bandidos perigosos, assaltantes, pessoas capazes de atos extremos  --  como atear fogo a suas vítimas, sejam índios ou dentistas, a exemplo do que se tem visto com certa frequência  no país  --,  é revoltante saber o que se tem feito contra o cearense José Genoino a mando do presidente do STF Joaquim Barbosa. Esclareço:
 
Genoino é, pela voz unânime dos que o conhecem, um homem íntegro, com uma folha de serviços prestados ao Brasil que vão da atuação legitimada como congressista (dos mais respeitados de todos os tempos) à luta armada no Araguaia contra a ditadura, num exercício de coerência política que o notabilizou entre uns poucos brasileiros aos quais devemos tanto das nossas maiores conquistas em termos democráticos. Preso e torturado, jamais se curvou às práticas repressivas, mesmo quando teve a sua integridade ameaçada. Agora, outra vez.
 
Aos 67 anos e com um número expressivo de mandatos, como deputado federal por São Paulo, Genoino, como afirma a jornalista de direita Eliane Cantanhede, na edição de hoje, 21 de novembro de 2013, da Folha, "... nunca quis ser  --  e não é  --  um homem rico". Pelo contrário, mora em um endereço simples da periferia da capital paulista e seu patrimônio declarado (e reconhecido!) ao TSE é de pouco mais de 500 mil reais, aí contabilizado o apartamento, adquirido por financiamento, onde mora com a família.
 
O que fez, então, para estar preso e ser humilhado como tem sido? Todos sabem: Genoino assinou, como presidente do PT, um contrato de empréstimo do partido junto ao Banco Rural. Empréstimo integralmente pago, diga-se em tempo. Genoíno foi também avalista do PT quando da renovação do referido empréstimo a cada três meses.
 
Onde o crime?, haverão de perguntar os menos informados sobre a matéria. Esclareço novamente: o dinheiro era repassado para campanhas eleitorais de alguns dos  partidos da base no PT no Congresso Nacional, a fim de que assegurassem ao governo Lula a governabilidade necessária para implantar as reformas de que agora tanto nos orgulhamos, mesmo aqueles que, beneficiados com os avanços ocorridos em todos os setores, não toleram um governo popular à frente dos destinos do Brasil.
 
Errou, que não é correto comprar corruptos, mesmo quando estão em jogo, como é o caso, os interesses mais legítimos de um povo, entenda-se por povo aquilo que o substantivo é, a palavra que define os segmentos menos favorecidos de uma dada sociedade.
 
Um dos partidos beneficiados, o PP, destinava parte do dinheiro para pagar a conta dos advogados  contratados para defender deputados envolvidos com ilícitos, como Ronivon Santiago, aquele que confessou ter recebido 200 mil reais para votar a favor da reeleição de Fernando Henrique Cardoso.
 
Homem íntegro, como afirmou o colunista Marcelo Coelho, do ferrenho inimigo do PT, o matutino  Folha de São Paulo, "dói muito ver a prisão de uma pessoa com o passado de José Genoino".
 
Mais ainda, acrescento, vê-lo submetido às humilhações com que se deliciam setores reacionários do país: as algemas só aceitáveis em casos de resistência ou fuga, as viagens desnecessárias (sobremaneira para um doente grave, como ele), o espetáculo montado pela TV, o tratamento hostil dispensado aos familiares, a empáfia de um majestático Joaquim Barbosa, tomado de ira contra tudo o que possa ofuscar sua vaidade doentia. Dói muito.
 
Pelo caráter, pela coerência entre o pensar e o agir, pelo que sempre sonhou e fez pelo Brasil, pela coragem com que lutou pelos brasileiros sem liberdade, nomeadamente os mais pobres e desassistidos, José Genoino não merecia o que lhe está acontecendo. 
 
 
 
           

Recordar é viver

Ao mergulhar na xícara de chá o tradicional bolinho madeleine, antes de levá-lo à boca, recuperando o cheiro gostoso da iguaria em sua infância, na cidade de Combray, o protagonista de Em busca do tempo perdido inicia a experiência milagrosa de recuperar o passado longínquo, resgatando a sua história feita de amores, ciúmes, alegrias, sofrimentos e do prazeroso encontro com a arte, compondo, assim, a identidade do narrador adulto desse livro-monumento de Marcel Proust.

Acho que todo homem, cedo ou tarde, vive uma experiência semelhante, quase sempre quando a memória de sua vida vai se esgarçando com o passar do tempo, e suas lembranças perdendo-se entre a névoa do envelhecimento que se anuncia. É quando percebe que a vida de todos nós é feita de passado, que o que chamamos de futuro é algo improvável, que sequer sabemos se um dia vai acontecer, tornando-se uma realidade.

"Quem vive de passado é museu!" Quem nunca terá escutado o tolo chavão? E, no entanto, nem se percebe que, concluída a afirmação, isso já é passado, única possibilidade de ordem factual. Está na Fenomenologia do espírito, de Friedrich Hegel: – "O agora já deixou de sê-lo quando é nomeado, já é passado."

Desde cedo, por curioso, seduziram-me as obras que tratam da vida pretérita, biografias, autobiografias, memórias. Fascina-me o desabrochar das lembranças, o trazer à mente aquilo que se viveu, os amores, os lugares em que se esteve, os perfumes e as sonoridades, as emoções que um dia tomaram conta de nós.

Tenho o hábito de ler esses escritos. Lembro-me como foi uma experiência impactante ler o livro de Proust, ora referido. Ou Minha formação, de Joaquim Nabuco; Navegação de cabotagem, de Jorge Amado; Solo de clarineta, de Érico Veríssimo; Tempo morto e outros tempos, de Gilberto Freyre; Meu último suspiro, de Luis Buñuel; A soma dos dias, de Isabel Allende; Minha vida na arte, de Constantin Stanislávski; Confesso que vivi, de Pablo Neruda; Minha vida, de Hermann Hesse e, um livro diferente no gênero, Memórias, sonhos e reflexões, de Carl Gustav Jung, para falar dos que me ocorrem enquanto escrevo estas linhas.

Saudosista, toca-me a etimologia do verbo recordar, do latim recordari, re = novamente + cord = coração, ou seja, trazer de volta ao coração.Sou um proustiano convicto. Provocam-me sensações incomunicáveis o cheiro inesperado de um perfume, a audição de uma música antiga, o sabor de uma comida há muito tempo experimentada.

A chuva, o céu plúmbeo de um entardecer, o cheiro da terra molhada, os traços de um rosto, um simples gesto de alguém que passa, um movimento de mãos, e eis o passado de volta, fazendo-se presente, este "isto" impossível de que nos falou Jacques Derrida.
           

Mera coincidência

Convidado a participar de debate sobre Mera coincidência (1997), por um ato de correção intelectual senti-me condicionado a revê-lo. E qual não foi a minha satisfação ao perceber o quanto o belo filme de Barry Levinson guarda irretocável atualidade, quer do ponto de vista dos meios de expressão adotados pelo diretor, quer pelo que representa como uma contundente crítica às práticas inconfessáveis que imperam nas relações entre políticos e mídia, num tipo de conluio recorrente em que, desde tempos remotos, o objetivo é manipular o povo em favor de interesses não menos inconfessáveis. Explico-me.
 
O filme narra um caso fictício muito próximo do que, sabemos, é comum ocorrer não só nos Estados Unidos, país em que está ambientado o filme de Levinson, mas em quase todos os lugares do mundo: a criação de factoides com motivações políticas.
 
No caso, tudo tem início quando um presidente e candidato à reeleição americano é flagrado em prática de abuso sexual contra uma adolescente. A exatos 11 dias da eleição, o fato tem uma repercussão monstruosa e ele começa a despencar nas pesquisas, para o que sua equipe é mobilizada a fim de tentar reverter a situação.
 
É contratado, para tanto, um especialista em campanhas chamado Brean (Robert De Niro), que, por sua vez, decide contratar Stanley Motss (Dustin Hoffman), um produtor de cinema de Hollywood, para realizar uma peça 'cinematográfica' sobre uma suposta guerra dos EUA contra a então pobre e inexpressiva Albânia.
 
O filme é produzido, a imprensa passa a explorar a guerra improvável e o presidente, amparado no apelo nacionalista que a notícia comporta, volta a liderar com margens irreversíveis as pesquisas de intenção de voto.
 
Mas, como é comum em todo ardil, a montagem do espetáculo mostra-se falha, quando a Casa Branca, ávida de resultados, põe os pés pelas mãos e divulga a retirada de suas tropas do território inimigo antes do tempo previsto por Brean (a cena em que Robert De Niro e Dustin Hoffman tomam conhecimento da ação irrefletida do governo é impagável, pelo desempenho extraordinário dos dois). Que fazer então?
 
Lança-se mão do plano B: na linha do que ocorrera a Ryan, a famosa personagem do filme de Steven Spielberg, um soldado americano teria ficado sob o controle dos albaneses, o que leva o presidente a determinar o seu resgate. Novas trapalhadas à parte, finalmente o presidente é reeleito, mas um detalhe vem se constituir num elemento dramático importante: Stanley Motss não pode usufruir do imenso prestígio conquistado junto à Casa Branca. O que lhe terá ocorrido?
 
O roteiro de Mera coincidência é, como se pode ver, curioso, intrigante, bem construído, na linha do que Barry Levinson fizera antes, nomeadamente com Rain Man, filme com que conquistou o Oscar e o Urso de Ouro do Festival de Berlim, em 1989. Mas o estilo e a originalidade com que manipula os meios de expressão é o que mais impressiona (ou me impressionou, para ser mais exato). Vejamos.
 
Mera coincidência constitui, enquanto estrutura narrativa, um exemplo clássico de metalinguagem, ou seja, sua tessitura realiza-se como num "movimento para o abismo", expressão com que André Gide definiu a sobreposição de narrativas, ou, em termos mais claros, a ocorrência de uma narrativa dentro da qual se desenvolve outra narrativa. Filme dentro do filme.
 
A narrativa de primeiro plano, cujo desenvolvimento conta a história de um escândalo e a necessidade de se criarem factoides capazes de reverter os prejuízos para o envolvido (o presidente candidato à reeleição), alicerça-se sobre a construção de uma outra narrativa: aquela que é confiada a Stanley Motss.
 
As sequências de realização do filme que induzirá ao logro, da produção do roteiro à direção da atriz durante as filmagens, são, neste sentido, emblemáticas, para não falar da presença de operadores de câmera, auxiliares de direção, iluminadores, maquiadores etc., elementos que, ainda mais, tornam explícito o discurso metalinguístico.
 
O fato de determinadas críticas serem realizadas no interior de estruturas de produção restritivas, como ocorre ao filme Mera Coincidência, leve-se em conta o fato de que existem nos Estados Unidos códigos de conduta para os diretores de cinema, por si só justificaria o meu entusiasmo com o filme.
 
Mas Barry Levinson foi muito além. Seu filme, enquanto constructo artístico, é irrepreensível. Os enquadramentos dos atores, em que sobressaem os closes reveladores do ânimo e das emoções das personagens, por exemplo, são estilizados e inovadores, mesmo para um tempo em que tudo parece já ter sido feito em termos cinematográficos. 
 
Ainda assim, é também notável a movimentação de câmera, sua angulação em cada plano, a luz, utilizada à perfeição, bem como a direção de atores são elementos estéticos que fazem de Mera coincidência uma obra de arte do cinema contemporâneo. O engodo de que são vítimas os eleitores americanos, nessa mise en abyme que é a narrativa dentro da narrativa, parece extrapolar os limites da realização fílmica  --  e servem para mostrar que somos manipuláveis também.
 
A Guerra do Golfo, a Invasão do Iraque, etc., confirmam que que a arte imita a vida? Ou, como quis Oscar Wilde, haverá de ser o contrário? É bom lembrar que o filme de Barry Levinson é anterior ao caso Mônica Lewinsky. Coisas da Arte.
 
 
 
 
           

Declarações de amor ao cinema

Semana que passou proferi palestra de inauguração do Espaço L.G. de Miranda Leão sobre o filme Cinema Paradiso, a convite do médico e intelectual Cesar Lincoln, a quem dirigimos o nosso aplauso pela forma como presta ao renomado crítico de cinema cearense esta justa e oportuna homenagem. Refiro-me, não à palestra em foco, claro, mas à construção dessa excepcional alternativa para um conhecido grupo de cinéfilos da cidade, que passa a contar com condições excepcionais para suas rodadas de filmes e debates sobre a sétima arte.
 
Falei na ocasião sobre interlocuções possíveis entre o filme de Giuseppe Tornatore e o poema A Odisseia, de Homero, valendo-me da Semiótica como perspectiva de análise dos muitos signos homéricos presentes na narrativa da comovente trajetória de Totó, o garoto que protagoniza Cinema Paradiso, nesta que me parece ser a mais bela declaração de amor ao cinema.
 
É que o filme do cineasta italiano, sugestivamente autobiográfico, para além de "citar" inúmeros filmes do cânone cinematográfico, meio de que se vale Tornatore para louvar alguns dos maiores mitos do cinema mundial (atores inesquecíveis como Chaplin, John Wayne, Jean Gabin, Bardot etc.), intertextualiza elementos dramáticos das desventuras de Ulisses no clássico grego, que, sabemos, constitui uma das mais prodigiosas metáforas do autoconhecimento, da descoberta interior do homem em sua longa e perversa jornada de volta para casa.
 
Hoje, dentro de uma programação que resulta de uma criteriosa e refinada escolha de títulos do 'grande cinema', o Espaço L.G. de Miranda Leão exibe o não menos metalinguístico (e perfeito do ponto de vista narrativo) Splendor, de Ettore Scola.
 
O filme, curiosamente, é de 1989, o mesmo ano de Cinema Paradiso, com o qual concorreu em inúmeros festivais, inclusive para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Perdeu, que, embora se trate de uma realização maravilhosa, quer na perspectiva do plano de expressão quer na perspectiva do conteúdo, Cinema Paradiso é mesmo, no gênero do metacinema, como se classificam os filmes sobre cinema, uma obra-prima incomparável.
 
Pois bem, Splendor narra a trajetória da sala de projeção de mesmo nome, cujas dificuldades operacionais, decorrentes do surgimento da TV como uma concorrente de apelo popular inquestionável, levam o seu proprietário, Jordan, esplendidamente interpretado por Marcello Mastroianni, a fechar suas portas.
 
Na linha do que ocorre ao Cinema Paradiso, também no filme de Ettore Scola vamos deparar com um tratamento de linguagem refinado e sensível, um desempenho de atores (Massimo Troisi está sublime no papel do projecionista e amigo de Jordan), na textura e paleta de cores, que por vezes dá espaço a um preto e branco coberto de poesia, bem como numa movimentação e câmera e requinte de enquadramento e composição de imagens de tirar o fôlego. Há quem o prefira a Cinema Paradiso, como Wilson Baltazar, uma das nossas autoridades quando o assunto é cinema.
 
A última sequência de Splendor, quando Jordan assiste à desmontagem do auditório por tantos anos lotado, e agora "vencido" pela ganância do capital (o empresário Lo Fazio, interpretado por Giacomo Piperno, pretende transformá-lo numa indústria de móveis) é um instante divino, pela sensibilidade e força lírica com que Ettore Scola transpõe para a tela o seu amor pela Arte. Coincidências à parte, são ambos imperdíveis!