A pedido

"Toda noite eu arrancava meu coração. Mas ele tornava a crescer."

(O Paciente Inglês)

 
Como ocorre a todo cronista, sento-me diante do computador e paro um instante à procura de um tema para a coluna dessa quinta-feira. Um tanto surpreso, lembro que estamos a poucas horas do novo ano e, como sempre, há no ar uma esperança de que as coisas possam se transformar por completo a partir de agora. Por isso, é natural que a gente faça tantos planos: voltar a ter o peso ideal; economizar uns trocados; fazer a viagem dos sonhos; parar de fumar; ir a São Paulo rever a amiga, o amigo, que há tempo não vemos; o Carnaval em Salvador; ser mais tolerante, mais cavalheiro, mais humano; escrever um novo livro, ou o primeiro, se for o caso; diminuir o uísque, o rum com coca, trocar a cerveja pelo vinho; conhecer o homem, a mulher dos sonhos. E por aí vai.

E, no entanto, mal começam a se passar os dias, e a vida volta a ser a mesma: "Como renunciar a esta picanha!", você diz no churrasco de aniversário do seu melhor amigo; "Um cigarrinho, apenas, não me há de matar!"; e, assim, você vai materializando a contradição, adiando os planos. "Ah, falei com a Roberta ontem, o Chris que venha me ver, afinal, o avião que leva, traz..."; e você foi a Recife, em vez de Salvador; trocou ofensas, no trânsito...; sua estreia como poeta, contista, pode ficar para o próximo ano; como pensar o happy hour sem três ou quatro saideiras?, os cartões do chope já chegando aos céus. E no amor, ela é linda, educada, sincera, mas tem um temperamento...; ele é companheiro, gentil, "imagina, me abre a porta do carro, puxa a cadeira no restaurante, em casa... Um cavalheiro, é romântico, mas tem um ciúme..." E você a deixa por tolice, que existem sete para cada homem. Rompe com ele, e vai tentar com o Maurício, se não der, que venha o Pedro, o João. Em dezembro, lá pela última semana, você está sozinho, sozinha, e diz para a melhor amiga: "No amor, não tenho tido sorte!"

Não há segredos, é fato. Mas que tal pensar um pouco sobre como você tem tocado a vida? Não é preciso que comece o novo ano para organizar certas coisas, enquanto é tempo. Parar de fumar, sim, "agora, que quero respirar bem, dormir melhor, aproveitar o sabor dos alimentos." É tão fácil dizer "por favor", "obrigado", "é possível?", "perdão, o erro foi meu!"... Colocar-se um pouco no lugar do outro, no trânsito, na fila do banco, à porta do elevador; em casa, com quem lhe faz a comida, lhe passa a roupa, cuida do seu jardim.
 
Alteridade, está no dicionário, é qualidade do que é outro, diferente, que se distingue. "A Marina tem esse defeito, mas, que vale isso, se é amorosa, solidária, se faz um amor gostoso, se me respeita, valoriza, me faz crescer como homem, me estende a mão, quando tropeço?" "O ciúme do Lucas é um defeito dele com que aprendi a lidar... Mas como é íntegro, companheiro, que coração possui, quanta honestidade no que diz, no que pensa..." O amor dos sonhos.

Faça diferente no próximo ano, que ele está chegando. Que tal agradecer-Lhe mais, e Lhe pedir menos? Uma missa, de vez em quando, por que não? Relaxe, morra de rir. Ouça mais, fale menos, abra seu coração. Exercite a tolerância, que "outro" quer dizer "diferente". Valorize as pequenas coisas, tente ser mais gentil, chore, se sentir vontade; estenda a mão mais vezes, abrace mais, emocione-se nas despedidas... Cante com o Roberto, queira ter um milhão de amigos. 2015 está chegando ao fim. Foi bom, não foi, poderia ter sido melhor? Vire a página. O coração doeu, teve que arrancá-lo noites a fio? Nada, não. É nova manhã! Tempo aberto para mudanças -- e elas clamam urgência, têm pressa. "A vida não é mais que o ato de ficar parado no ar, antes de mergulhar", diz uma velha canção. Pense nisso, já.

Feliz Ano-Novo!


120 anos de Cinema

Hoje, 28 de dezembro, comemoram-se os 120 anos do cinema. Não da invenção tecnológica que permitiu o seu surgimento, ocorrida um pouco antes, mas da primeira sessão, em 1895, no Grand Café do Boulevard des Capucines, em Paris. À frente da empreitada havia dois irmãos, Louis e Auguste Lumière, a quem a história da sétima arte atribui essa que seria uma das maiores conquistas do homem, notadamente daqueles que vivem da Arte ou amam, como eu.
 
Curiosamente, segundo registram os melhores historiadores, coube a Louis Lumière uma das declarações sobre o cinema mais infelizes de que se tem notícia: "Esta é uma invenção sem futuro!", teria afirmado durante o evento. Hoje, para se ter uma noção da tolice que proferira, Star Wars, em cartaz nos cinemas, ultrapassa, na segunda semana de exibição, a casa de um milhão de dólares arrecadados, batendo todos os recordes de bilheteria. Mas muita coisa aconteceu durante esses 120 anos.
 
Comecemos pela primeira sessão. Dez filminhos foram exibidos, dois deles referências obrigatórias para qualquer cinéfilo: A Chegada do Trem à Estação de Ciotat e Saída dos Operários da Usina Lumière. Cinematógrafo era o nome do aparelho que, no começo do cinema, acumulava dupla função, a de máquina de filmar e projetor. Louis e Auguste Lumière, num tipo de ato falho que evidencia a ironia da declaração feita pelo primeiro, recusaram-se a comercializar o invento, embora assediados de perto por Georges Méliès, mágico de prestígio à época a quem caberia, pouco depois, a primeira revolução cinematográfica: Méliès adicionaria ao caráter documental dos primeiros filmes uma sedutora força ficcional, a exemplo do que atestam filmes ainda hoje encantadores, Viagem à Lua, para falar do mais famoso deles.
 
Se aos irmãos franceses coube assinar a poderosa invenção e ao compatriota Georges Méliès imprimir os primeiros procedimentos revolucionários, é a um americano a quem se deve atribuir a descoberta das primeiras estratégias narrativas por que viria se orientar o grande cinema. D. W. Griffith é considerado com justiça o primeiro cineasta de todos os tempos, a quem coube criar uma verdadeira linguagem cinematográfica, estabelecendo as leis mais significativas do cinema clássico.
 
Em O Nascimento de uma Nação (1915), Griiffith inaugura, entre outros recursos estilísticos que permeiam a sétima arte na atualidade, o uso da montagem paralela, o que permitiria a sobreposição de narrativas múltiplas em um mesmo tempo diegético, isto é, dois acontecimentos sendo narrados simultaneamente em lugares diferentes.
 
São clássicos alguns dos filmes que viriam na sequência de O Nascimento de Uma Nação, com justo destaque, por certo, para O Gabinete do Dr. Caligari, de Rober Wiene, e Nosferatu (1922), de Murnau, bem como os filmes de Chaplin, verdadeiras obras-primas do cinema não falado.
 
Como não lembrar, ainda, das contribuições estéticas inovadoras do neorrealismo italiano (filmes rodados na rua, com populares em lugar de atores profissionais e o seu elevado tom denunciador),a partir do obrigatório Roma, Cidade Aberta (1945), de Roberto Rossellini? Da nouvelle vague, francesa, de François Truffaut e Jean-Luc Godard? De filmes absolutamente indispensáveis, como Acossado (1960), verdadeiro marco na história do chamado cinema de autor? Bergman, Fellini, Antonioni, Kurosawa, Glauber, Lang, Kazan... Como esquecê-los?
 
Assim, mesmo numa época dominada pelo blockbuster, os "arrasta quarteirões" pautados pelos recursos da tecnologia pós-moderna, é impossível pensar um mundo sem filmes. Em Fortaleza, Munique, Madri, numa cidadezinha da Rússia, do bairro rico de Nova York ao mais pobre recanto do Irã, que nos daria Abbas Kiarostami, nos lugares mais impensáveis, não surpreende que corações palpitem sob o efeito do sortilégio, da magia, da força lírica de uma arte sublime de ontem e de hoje. Dessa invenção que, na contramão da afirmação irônica de Louis Lumière, há exatos 120 anos, tem seu lugar assegurado no futuro de todas as nações. Brindemos.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
            
           

Vi nascer um Papai Noel


                                                                                                                         Para Luís Eduardo
 
Na confraternização do Natal, em meio a pessoas da família, constatei que os mais novos, pais e mães, trazem de volta para seus filhos pequenos a crença de que Papai Noel existe. Num mundo hiper-racionalizado, o fato chamou-me a atenção. Um deles baixava no celular um aplicativo que permite a "gravação" do bom velhinho depositando ao pé da árvore de Natal da casa seus presentes. O filme seria mostrado aos pequenos na manhã seguinte, como forma de comprovar a existência do bom velhinho.
 
Estava registrada a sua ansiada visita durante a madrugada. Papai Noel existe. Existiu?
 
Era grego, e foi perseguido por suas convicções cristãs, lá pelos anos 280, naquilo que a História registra como a Grande Perseguição de Diocleciano, imperador romano. Foi preso e torturado, mas sobreviveu e, num gesto espontâneo de gratidão, passou a distribuir presentes aos meninos pobres, deixando-os dentro dos sapatos que, à época, ficavam nas portas das casas durante a noite.
 
Sua história, pois, articula-se à perfeição com a história de Jesus. Esta se prende, segundo a Bíblia, ao exílio da Sagrada Família para o Egito. Sabe-se, como está no Evangelho, que Herodes, inconscientemente advertido de que nascera um Deus, ordenara a seus soldados matar todos os recém-nascidos, a fim de preservar seu trono.
 
Voltemos ao Papai Noel real. Chamava-se Nicolau, e, canonizado alguns séculos depois, deu origem ao costume de dar presentes às crianças pobres todo 6 de dezembro, data de sua morte. O costume varou fronteiras e chegou aos Estados Unidos, segundo o historiador Gerry Bowler, por volta do século XVII.
 
Mas a imagem com a qual o visualizamos hoje é recente: na década de 30, um designer americano, contratado pela Coca-Cola, imaginou-o gordo, com a longa barba branca, vestido com roupa vermelha e servindo-se na cabeça do famoso gorro encimado por um capulho de algodão.
 
A transformação do Papai Noel, contudo, em que pese fundamentada em interesses comerciais, como forma de obter maiores dividendos a cada final de ano (a data compreensivelmente seria mudada para 25 de dezembro), tem seu sortilégio e o mito deve ser mesmo alimentado entre as crianças, com o simbolismo capaz de estimular a sensibilidade infantil para o desprendimento e a generosidade de repartir com os menos favorecidos um pouquinho do que temos.
 
Num tempo marcado por contradições montanhescas, que bom seria se todos nós nos deixássemos também infantilizar um pouco, acreditando que Papai Noel pode realmente existir em cada um, abrindo nossos corações para aqueles que mais precisam (que nem sempre é o bem material), e que, por certo, estão ao alcance dos nossos olhos por onde quer que andemos.
 
Este ano, para registrar um exemplo, vi numa pessoa próxima este gesto de desprendimento e altruísmo. Soube, depois, que o faz a cada Natal. Mais importante, faz costumeiramente ao longo do ano, sem a preocupação com tornar público o seu gesto, o que, ao gesto, dá muito maior significado e, ao autor, nobreza.
 
Por último, a nossa relativa proximidade permitiu-me acompanhá-lo de perto durante um momento difícil para a sua família. Pude perceber, então, que por trás do homem aparentemente severo e insensível, existia um coração generoso e bom, uma essência de humildade interior que espontaneamente fez aflorar aos olhos de todos (refiro-me aos que não o conheciam tão bem) um tipo de generosidade desinteressada, algo muito próximo da inclinação de natureza instintiva que incita o ser humano à preocupação com o outro e pode ser estimulada pela educação, contrapondo-se aos instintos naturais egocêntricos conforme nos falou, se não me falha a memória, Augusto Comte.
 
Mais de uma vez, que me desculpem o pleonasmo estiloso, pude vê-lo chorar um choro tímido, discreto, silencioso, desses que explodem do mais sombrio escaninho do coração de tão represados, mas que dão a medida exata da sinceridade dos sentimentos e a perceber o que existe neles de mais elevado em poesia, virtuosidade, nobreza.
 
Como fosse antevéspera do Natal, esses momentos me fizeram reler a imagem que fazia desse homem. Na simplicidade de um instante, que me pareceu eterno, pude enxergar com nitidez a figura rediviva de Nicolau. Mais que isso: vi renascer ali o Papai Noel em que se pode transformar cada um de nós, todos os dias, para o sem-fim dos tempos.   
 
 
           

Fascismo

Millôr Fernandes afirmou certa vez: "Chico Buarque é a única unanimidade nacional!" Ledo engano: para o reacionarismo do PSDB, não. É o que deu a ver a hostilidade fascistoide a que foi submetido na segunda-feira à noite enquanto saía de conhecido restaurante do Leblon, no Rio de Janeiro. Chico Buarque estava na companhia de outros artistas respeitados, o cineasta Cacá Diegues entre eles.
 
Enquanto aguardavam um táxi, o gênio da MPB foi provocado por um grupo de empresários com gritos de "vai morar na Venezuela petista" e outros insultos recorrentes no atual momento de intolerância e golpismo que parece querer toma conta do país. "O PT é bandido", dizia um outro, ao que o principal compositor brasileiro, sem perder a fleuma, retrucou: "O PSDB é bandido". Chico foi xingado por apoiar publicamente a presidente Dilma Rousseff, tendo assinado recentemente um manifesto contra a tentativa de golpe que tem Aécio Neves como principal defensor.
 
Entre os agressores, encontrava-se um filho do empresário Álvaro Garnero, que ainda ofendeu o compositor por possuir um apartamento em Paris. Segundo a repórter Madalena Romeo, estagiária de O Globo que assina a matéria na edição de ontem do jornal, Chico dirigiu-se a seu agressor uma última vez: "Você é leitor de Veja".
 
O fato, que ocorre ao mais respeitado artista do país, dá bem uma ideia do que tem caracterizado a prática dos eleitores de Aécio Neves em relação ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Todos os dias, nos mais diferentes recantos do território nacional, pessoas são desrespeitadas e não raro agredidas, até fisicamente, por não comungarem com as tentativas (fracassadas!) de destituição da presidente, na contramão dos quase 55 milhões de votos obtidos por ela na última eleição.
 
É essa gente que quer voltar a governar o país.
 
Dilma Rousseff, no entanto, depois de um verdadeiro massacre a que foi submetida pela grande imprensa e setores reacionários, emblematicamente representados pelos envolvidos na agressão a Chico Buarque, termina o ano com vitórias expressivas. Depois do STF, que pôs por terra a manobra de Eduardo Cunha no sentido de otimizar os mecanismos de golpe na Câmara dos Deputados, pelo convincente escore de 8 a 3, vê com entusiasmo o parecer do relator das contas presidenciais de 2014, senador Acir Gurgacz (PDT), que rejeita o parecer do TCU sobre o que chama de "pedaladas fiscais".
 
Ainda que simbólico, o fato constitui um reforço à recuperação da presidente, bem na linha do que atestam pesquisas recentes do Datafolha, que indicam um ligeiro crescimento nos níveis de aprovação do governo de Dilma Rousseff.
 
Quanto às lamentáveis ocorrências do Leblon, se o fazem a Chico Buarque o que não estão fazendo aos simples mortais.
 
P.S. - Este cronista deseja aos leitores da coluna um Feliz Natal!
 
 
            
            
           

Violência simbólica e outras violências

Quando a imprensa brasileira atinge níveis de reacionarismo que beiram a indignidade, na linha do que fazem a rede Globo de TV, o jornal Folha de S. Paulo e a revista Veja, deve-se festejar o lançamento do livro A Tolice da Inteligência Brasileira, como o país se deixa manipular pela elite, de Jessé Souza, atual presidente do IPEA, publicado pela editora LeYa.
 
Numa linguagem elegante e bastante clara, por cuja força o texto de Souza conquista o leitor desde as primeiras páginas, A Tolice da Inteligência Brasileira sobressai ao lixo editorial disponível no mercado pela densidade de uma análise que se fundamenta no que existe de mais significativo em termos de pesquisa hoje, contemplando abordagem que se estende de levantamentos econômicos consistentes a uma refinada capacidade de entender o que está por trás de práticas sociais dominantes  --   que explicam a reprodução de privilégios injustos no Brasil.
 
Numa leitura clara e convincente, mesmo para os leitores menos familiarizados com o norte teórico em que se sustenta, Jessé Souza mostra como se dá o domínio de 1% dos mais ricos sobre os 99% restantes da população. O que é pior, o livro explica como um "exército de intelectuais", submissos à elite endinheirada, atua no inconfessável processo de legitimação das desigualdades. A essa altura o autor chama a nossa atenção para o que, valendo-se de Max Weber, denomina de "violência simbólica", isto é, a capacidade de convencimento com que "especialistas" (tão presentes nas matérias de jornal e TV) levam os excluídos desses privilégios a aceitar inocentemente tal realidade. Qualquer semelhança com o que fazem Mirian Leitão e Reinaldo Azevedo, pois, não será mera coincidência. Sem esquecer FHC e Demétrio Magnoli, claro.
 
Esse exército de intelectuais, diz Souza, tem seu equivalente nas religiões do passado e na forma como as crenças operavam nas sociedades tradicionais. Especificamente sobre a imprensa, o livro realça a verdade insofismável: Não basta aos endinheirados controlar todos os jornais e redes de TV para legitimar seus próprios interesses. É necessário "justificar", de modo a apresentá-los como "razoáveis".
 
A violência simbólica é tamanha, que os pobres, bem ao jeito de expressivos contingentes de explorados em face da presidente Dilma Rousseff hoje, abraçam as causas da elite (impeachment), que só beneficiam esta contra aqueles, num tipo de legalização do que é ilegal ou desprovido de certas formalidades para se tornar legal. "Isso, diz Jessé Souza, significa que os privilégios injustos de hoje não podem 'aparecer' como privilégio, mas sim como, por exemplo, 'mérito pessoal' de indivíduos mais capazes, sendo, portanto, supostamente justificável e merecido."
 
Sabe-se, infelizmente, que nem sempre é somente simbólica a violência contra os pobres. Vejamos um caso real: A diarista Márcia Maria, que presta serviços na casa deste colunista às segundas-feiras, foi convocada pela patroa do restante da semana, a participar de reunião com outros servidores da referida senhora, lavadeira, motorista e babá do filho recém-nascido. Foram essas as palavras, segundo Márcia: "Se vocês não forem à manifestação amanhã (era sábado, 12,  véspera da mobilização em favor do impeachment), estão desempregados na segunda-feira. Vocês têm de ficar juntos, para que eu os veja, na calçada do Shopping Avenida às duas horas." Ato-contínuo, Márcia Maria lançou mão do celular e pediu que o marido a apanhasse imediatamente. Estava desempregada.


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Aos estudantes brasileiros

Em caráter extraordinário, o texto da coluna de hoje é de autoria de Carina Vitral, 27, estudante de economia da PUC - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e presidente da UNE - União Nacional dos Estudantes.
 
Haverá uma grande reação da sociedade civil, dos movimentos sociais e das diversas forças democráticas do Brasil se avançar a proposta chantagista de impedimento da presidente Dilma Rousseff, protocolada pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.
A mesma postura terão os estudantes. Não há como esperar algo diferente da UNE, que ao longo de 80 anos sempre esteve ao lado do interesse nacional, da soberania do país e da luta contra todas as forças de golpe e autoritarismo.
Ao contrário do que previu delirantemente nesta Folha o líder Fake Kataguiri, coordenador do Movimento Brasil Livre (MBL), as ruas não causarão o impeachment da presidente, mas, na verdade, derrotarão a movimentação baseada em farsas políticas e pouco respeito à normalidade institucional tão dolorosamente conquistada ao longo das últimas décadas.
No Brasil, a voz das ruas cisma em estar é do lado correto do jogo, a favor da democracia e da garantia dos direitos, no caminho dos avanços e não do retrocesso.
Talvez Kim Kataguiri e outros arremedos de liderança congêneres não o saibam porque se mobilizam apenas em favor de seus próprios interesses  --  ou daquilo que interessa a seus obscuros financiadores.
Onde estava Kataguiri quando mais de 200 escolas de São Paulo foram ocupadas na bravíssima batalha dos estudantes pela educação pública e contra o fechamento das instituições de ensino? Onde estava o MBL na primavera das mulheres pela liberdade, contra o machismo e a violência do gênero?
Aliás, onde estão as representantes femininas desses pseudomovimentos? Não são eles que representam os trabalhadores, os negros, a população rural, indígena e muito menos a juventude.
A UNE não respeita a proposta de impeachment por desconhecer sua base legal e por reconhecer no processo a reles motivação de vingança de um parlamentar imerso até o pescoço em denúncias de corrupção.
O movimento estudantil está, na verdade, totalmente empenhado na campanha "Fora Cunha!", reconhecendo nele um grande inimigo das conquistas sociais do país e da população mais desfavorecida.
A campanha contra a redução da maioridade penal, o levante feminista e os estudantes mostraram o caminho e compreendem que o presidente da Câmara representa o que há de pior e de mais asqueroso na política nacional.
Há aqueles que tentam traçar paralelo entre o processo de impeachment de Collor e a presidente Dilma, nunca acusada de absolutamente nada.
O cenário, no entanto, parece muito mais o de 1964 do que o de 1992. A rapinagem dos que desejam derrubar a república não difere daquela promovida pelos golpistas que depuseram João Goulart.
O resultado dessa ação foi a ditadura que manchou a história do Brasil, cassou as liberdades civis, perseguiu, torturou e matou aqueles que pensavam diferente, em grande parte jovens estudantes.
Coube ao movimento estudantil resistir, ser um dos protagonistas da luta contra o regime, pela reconstrução institucional do país.
Procure pela democracia e nos encontrará. Procure pela afirmação dos direitos, pela luta a favor da educação brasileira, e nos encontrará. Procure pela transformação da sociedade, pelo combate às injustiças, pelo apoio aos que mais precisam, e nos encontrará.
A UNE tem lado. Procure pelo golpe, pela chantagem e pela mentira daqueles que não gostam das regras do jogo e estaremos sempre na direção oposta. As ruas derrotarão o impeachment. A começar pelo próximo dia 16 de dezembro, data que os movimentos sociais tomarão as ruas contra o golpe, em defesa da democracia do Brasil.

Cegueira e fragilidade de caráter

O ódio cega as pessoas, quando não fere de morte o seu caráter. Mal se materializava o gesto revanchista pelas mãos sujas de Eduardo Cunha, no sentido de deflagrar o processo de impeachment de Dilma Rousseff, chovia na minha caixa de e-mails mensagens de leitores festejando o fato. Entre esses, amigos, grandes amigos, por certo incomodados com os textos de minha autoria publicados neste espaço. Estão dominados pelo inconformismo, alguns, em face das sucessivas derrotas de seus candidatos para Lula e o PT; outros, por confundir interesses pessoais com o andamento de ações do governo em face das quais se dizem prejudicados. Dói em seus bolsos a divisão da riqueza. E não me refiro aos ricos, a quem nada é capaz de tirar privilégios e regalias, haja o que houver. Trata-se de funcionários públicos ou pequenos empresários, médicos e outros profissionais liberais. Gente que desconhece o que na realidade significa destituir uma presidente eleita pela vontade soberana do povo brasileiro. Desconhecem a história, ignoram o que é a política ou a distorcem ao sabor de suas conveniências.

***

Assistindo ao belíssimo 100 Anos de Samba, no Teatro João Caetano, Rio de Janeiro, ocorre-me lembrar de que o espetáculo acontece no mesmo palco em que se deu um dos maiores acontecimentos políticos deste País. Refiro-me à instalação, no começo de 1935, da ANL, uma das organizações mais consistentes em favor das liberdades democráticas e individuais, nacionalização dos serviços públicos, reforma agrária, aumento dos salários e melhoria das condições de trabalho, do direito à crença religiosa e de combate ao racismo no Brasil.
 
Quase ouço as vozes que nunca ouvi, mas que conheço dos poucos livros de História que registraram os fatos na ótica dos menos favorecidos, que tiveram a dignidade de narrar os acontecimentos a que me refiro sem o servilismo e a canalhice da grande imprensa de hoje.
 
No Teatro João Caetano, no coração do Rio, foi assinada a primeira Constituição brasileira. O instrumento central da Lei de um País, a que vulgarmente se chama Carta Magna da Nação, pisoteada pelo reacionarismo ressurgente de uma elite que não tolera o Diferente, que se abraça apaixonadamente ao suspeitíssimo  Eduardo Cunha e o lambe, animada pela possibilidade de um novo golpe.

***

Por coincidência, leio no momento a biografia de Luís Carlos Prestes, recém-lançada pela Boitempo e assinada por Anita Leocádia Prestes. No Teatro João Caetano, em 1935, no evento carregado de simbolismo a que me refiro acima, o chamado Cavaleiro da Esperança assumiria a presidência da ANL. Era à época o político brasileiro de maior prestígio. Dono de um carisma inexplicável, Prestes era dotado de um charme e de um poder de convencimento que o fazia brilhar aonde quer que fosse. Mas era duro, tinha a firmeza de que nos falou Che Guevara, sem "perder a ternura jamais".  No Brasil de hoje, acrescento sem medir palavras, falta um homem como Luís Carlos Prestes.

***

Com pouco menos de 20 capítulos e algo em torno de 500 páginas, Luís Carlos Prestes, um comunista brasileiro, com todas as restrições que se lhe possam fazer, é resultado de mais de trinta anos de pesquisa em livros, artigos e outros documentos existentes no Brasil e no exterior. Percorre a trajetória de Prestes desde a infância até à morte, em 1990. Escrita por sua filha, Anita Leocádia Benário Prestes, com a icônica Olga Benário, assassinada pela Gestapo, a biografia faz rápida alusão aos acontecimentos de instalação da ANL, mas é precisa ao traçar o perfil do homenageado. Recomendo.