Cegueira e fragilidade de caráter

O ódio cega as pessoas, quando não fere de morte o seu caráter. Mal se materializava o gesto revanchista pelas mãos sujas de Eduardo Cunha, no sentido de deflagrar o processo de impeachment de Dilma Rousseff, chovia na minha caixa de e-mails mensagens de leitores festejando o fato. Entre esses, amigos, grandes amigos, por certo incomodados com os textos de minha autoria publicados neste espaço. Estão dominados pelo inconformismo, alguns, em face das sucessivas derrotas de seus candidatos para Lula e o PT; outros, por confundir interesses pessoais com o andamento de ações do governo em face das quais se dizem prejudicados. Dói em seus bolsos a divisão da riqueza. E não me refiro aos ricos, a quem nada é capaz de tirar privilégios e regalias, haja o que houver. Trata-se de funcionários públicos ou pequenos empresários, médicos e outros profissionais liberais. Gente que desconhece o que na realidade significa destituir uma presidente eleita pela vontade soberana do povo brasileiro. Desconhecem a história, ignoram o que é a política ou a distorcem ao sabor de suas conveniências.

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Assistindo ao belíssimo 100 Anos de Samba, no Teatro João Caetano, Rio de Janeiro, ocorre-me lembrar de que o espetáculo acontece no mesmo palco em que se deu um dos maiores acontecimentos políticos deste País. Refiro-me à instalação, no começo de 1935, da ANL, uma das organizações mais consistentes em favor das liberdades democráticas e individuais, nacionalização dos serviços públicos, reforma agrária, aumento dos salários e melhoria das condições de trabalho, do direito à crença religiosa e de combate ao racismo no Brasil.
 
Quase ouço as vozes que nunca ouvi, mas que conheço dos poucos livros de História que registraram os fatos na ótica dos menos favorecidos, que tiveram a dignidade de narrar os acontecimentos a que me refiro sem o servilismo e a canalhice da grande imprensa de hoje.
 
No Teatro João Caetano, no coração do Rio, foi assinada a primeira Constituição brasileira. O instrumento central da Lei de um País, a que vulgarmente se chama Carta Magna da Nação, pisoteada pelo reacionarismo ressurgente de uma elite que não tolera o Diferente, que se abraça apaixonadamente ao suspeitíssimo  Eduardo Cunha e o lambe, animada pela possibilidade de um novo golpe.

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Por coincidência, leio no momento a biografia de Luís Carlos Prestes, recém-lançada pela Boitempo e assinada por Anita Leocádia Prestes. No Teatro João Caetano, em 1935, no evento carregado de simbolismo a que me refiro acima, o chamado Cavaleiro da Esperança assumiria a presidência da ANL. Era à época o político brasileiro de maior prestígio. Dono de um carisma inexplicável, Prestes era dotado de um charme e de um poder de convencimento que o fazia brilhar aonde quer que fosse. Mas era duro, tinha a firmeza de que nos falou Che Guevara, sem "perder a ternura jamais".  No Brasil de hoje, acrescento sem medir palavras, falta um homem como Luís Carlos Prestes.

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Com pouco menos de 20 capítulos e algo em torno de 500 páginas, Luís Carlos Prestes, um comunista brasileiro, com todas as restrições que se lhe possam fazer, é resultado de mais de trinta anos de pesquisa em livros, artigos e outros documentos existentes no Brasil e no exterior. Percorre a trajetória de Prestes desde a infância até à morte, em 1990. Escrita por sua filha, Anita Leocádia Benário Prestes, com a icônica Olga Benário, assassinada pela Gestapo, a biografia faz rápida alusão aos acontecimentos de instalação da ANL, mas é precisa ao traçar o perfil do homenageado. Recomendo. 

 

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