Intolerância ao Outro

Escrevi, há coisa de duas semanas, sobre o clássico O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. As limitações de espaço condicionaram-me a circunscrever a importância do livro à questão feminina. Em tempo, sinto-me levado a retomar o texto da pensadora francesa tomando por base um aspecto que me parece igualmente relevante, sobremaneira por tratar daquele que considero o maior desafio dos homens em pleno terceiro milênio: a convivência com "o diferente", isso que do ponto de vista acadêmico recebe o nome de "alteridade".
 
Já na parte introdutória de O Segundo Sexo, a escritora francesa faz uma afirmação central em torno da alteridade: "Nenhuma coletividade se define nunca sem a Outra diante de si. Basta três viajantes reunidos por acaso num mesmo compartimento para que todos os demais viajantes se tornem 'os outros' vagamente hostis". É nessa perspectiva que o tema ganha em significado nos tempos de hoje, decorridos 65 anos desde a publicação de O Segundo Sexo. Beauvoir evidencia que aqueles que não pertencem "ao mesmo lugarejo são 'os outros' e suspeitos". Dá exemplos: 'os outros' são os judeus, para os antissemitas; os negros, para os racistas americanos; os indígenas, para os colonizadores; os trabalhadores, para os empresários.
 
No último desses exemplos, que trata da relação capital/trabalho, admitindo-se que não se pode tomá-lo como algo generalizado, o que representaria um julgamento também preconceituoso, é que o problema da alteridade, da convivência com o Outro se torna um problema particularmente importante. É que os demais, pela nitidez com que se nos apresenta todos os dias, mulheres, homossexuais, afrodescendentes, índios, imigrantes etc., constituem uma realidade indiscutível em que o preconceito e a intolerância sobressaem como um desafio inelutável. Chamo a atenção, pois, para a relação trabalhador/empresário, em outras palavras: pobres/ricos. Deixemos os nordestinos para um novo momento.
 
O que se verifica no Brasil, trazendo a reflexão para os limites da realidade mais próxima, é exemplo inconteste de que, ainda, não é possível a convivência ideal com "o diferente". Nessa relação, como em tudo na vida, o problema se fortalece no sentido dominante/dominado, isto é, a intolerância se manifesta na rejeição ao Outro, aquele "estrangeiro" que passou a transitar pelos espaços historicamente reservados para os ricos: shoppings, praias, aeroportos, ruas e praças anteriormente ocupadas pela elite e, agora, por força de uma política de inclusão social levada a efeito nesses 12 anos, "invadidas por essa gentinha do Lula", na linha do que, literalmente, enquanto folheava um livro numa loja conceituada do ramo, dia desses, ouvi de uma senhora referindo-se a um grupo de adolescentes ao lado.
 
O "não saber" aceitar a proximidade do "diferente", os menos favorecidos de uma sociedade marcada por contradições seculares, é o que me parece mais grave e preocupante na ótica do que analisa à perfeição Simone de Beauvoir. A intolerância, com o passar do tempo, ganha força, intensifica-se, vai além do comentário sórdido da socialite da livraria: transforma-se em ódio, chega à agressão física e moral.
 
Como observa a autora de O Segundo Sexo, o problema da alteridade (da convivência com o Outro) não existiria se vivêssemos numa sociedade em que o mitsein assentasse suas estruturas em valores mais humanos, a exemplo da solidariedade e da amizade. Não é o que se vê. Simone de Beauvoir reporta-se a Hegel, o filósofo alemão, para quem a hostilidade reside na própria consciência humana. É que o sujeito só se sente "posto" (bem posto!) quando se opõe ao Outro. Só assim ele se pode afirmar "como essencial e fazer do outro o inessencial, o objeto". É o ódio, a fase em que os brasileiros estamos.
 
           

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