O Segundo Sexo

RIO - No avião, entre Fortaleza e Rio de Janeiro, concluo releitura de Cerimônia do Adeus, livro em que Simone de Beauvoir relata a agonia de Jean-Paul Sartre até a morte. Como o tivesse lido havia muitos anos, pouco mais que adolescente, a narrativa da filósofa e companheira do autor do Ser e o Nada pouco me tocara à época, se não pelo fato de trazer à tona fatos curiosos da velhice de um dos maiores escritores franceses do século XX. Hoje, contudo, numa consequência natural dos muitos carnavais vividos, o drama de Sartre já não me soa estranho e o livro serve como um anúncio do que aguarda os homens de minha geração num futuro, agora, menos improvável. Se chegarmos lá, é claro.

Simone descreve com a sensibilidade de uma escritora não menos importante o que foram os dez últimos anos ao lado de um homem genial, mas humano como qualquer um, suscetível de contradições, oscilações de humor, gestos não raro indelicados e distantes de sua sabedoria como pensador e como artista. Conheceram-se ainda jovens, nos tempos da Escola Superior Normal, em Paris, passando a viver uma relação pautada pelo respeito à liberdade individual do outro, inclusive no que trata da sexualidade. Sartre teve muitas amantes, Simone também.

Não à toa, portanto, Simone de Beauvoir foi sempre incompreendida. Escreveu um livro obrigatório sobre a questão feminina, O Segundo Sexo, no qual desenvolve uma das mais extraordinárias reflexões sobre a dicotomia gênero / sexo. Começa o segundo volume do livro com uma afirmação que é mesmo uma síntese do seu pensamento acerca de como se construiu e se fez incontornável o rótulo "mulher" para a legitimação do machismo em todos os países, mesmo na Europa em que nasceu, viveu e produziu algumas das páginas mais brilhantes da literatura mundial: "On ne nait pas femme, on devient femme", algo como "não se nasce mulher, torna-se mulher".
 
Desde então (o livro é de 1949), é impossível pensar o jugo a que se submeteu a mulher sem fazer de O Segundo Sexo um apoio para a perfeita compreensão das raízes do mal que a torna muitas vezes um ser "inferior", objeto dos mais variados mecanismos de dominação em casa, nas fábricas, escolas e outros ambientes de trabalho. Para não falar da violência que outra vez parece tomar conta das páginas de jornal, a exemplo do que ocorreu recentemente à dançarina cearense morta em São Paulo.

O fato é que, por tudo o que deixou como pensadora e memorialista, sem desconhecer a sua militância política não menos relevante, o que é ainda mais significativo sob muitos aspectos, decorridos trinta anos de sua morte, Simone de Beauvoir deverá ser em 2016 o alvo das maiores homenagens mundo afora. Seu nome deve figurar com brilho nos maiores eventos que digam respeito ao que houve de melhor na ficção francesa, no teatro, no memorialismo do século XX, com mais justeza, ainda, em todas as arenas em que se debatam os caminhos que levam o homem, efetivamente, a reconhecer a igualdade dos sexos no que respeita a direitos e deveres.

Imprescindível reconhecer, todavia, que Simone de Beauvoir edificou um pensamento maior e mais denso em torno da indagação "o que é uma mulher" que os muitos "feminismos" pelos quais se orientam algumas ações femininas e ganham forma alguns discursos, de resto equivocados em seus objetivos e suficientes para endurecer saberes e práticas que perpassam o dia a dia de homens e mulheres em todos os lugares do Brasil e do Mundo. Ler O Segundo Sexo, traduzido para o português por Sérgio Milliet, é uma experiência enriquecedora. A introdução, em que Beauvoir discorre sobre a intolerância ao 'Outro', permanece atual e aplica-se com exatidão aos nossos dias. Recomendo.


            
           

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