Com rigor e alguma subjetivação

Para quem, como eu, ficou acordado até tarde a fim de assistir à entrega do Oscar 2013, o resultado, mais do que nunca, refletiu o caráter político da premiação, notadamente para o melhor filme. Nada mais sintomático que a presença da primeira-dama dos Estados Unidos, Michele Obama, direto da Casa Branca, para anunciar o vencedor, Argo, o filme de Ben Affleck, que se presta à perfeição como robustecedor do nacionalismo americano em momento de crise geral do país. 
 
Não que o thriller sobre a retirada dos reféns americanos do Irã, em fins dos anos 70, não seja um grande filme. Mas está longe de ter a perfeição cinematográfica de Lincoln, de Steven Spielberg, curiosamente marcado, também, por fortes sugestões nacionalistas, que, ao menos, foi contemplado com duas estatuetas da Academia de Arte e Ciências Cinematográficas de Hollywood: venceu nas categorias de melhor ator, para o inglês Daniel Day-Lewis, e de melhor direção de arte.
 
No mais, a lista de vencedores, na humilde opinião deste blogueiro, "surpreende", apenas, pela escolha de melhor direção para o taiwanês Ang Lee, As Aventuras de Pi (The life of Pi). Explico as aspas: a premiação de Lee ratifica o que parece ser inevitável em termos cinematográficos hoje: o cinema convencional, mesmo quando inovador em sua linguagem, o dito cinema moderno, está com os dias contados, em favor das produções de laboratório, bem ao gosto do público contemporâneo.
 
Numa palavra: das produções rigorosamente comerciais. A prova está nos números de arrecadação. As aventuras de Pi é o mais assistido entre os, até à noite de ontem, concorrentes ao prêmio de melhor filme, e sua receita supera a marca dos US$ 600 milhões. Baseado no livro homônimo, de Yann Martel, teve custos de produção em torno dos US$ 120 milhões, o que dá a ver a sua rentabilidade e confirma, como dissemos, uma tendência irrefreável da nova cinematografia.
 
Por último, uma mera subjetivação: lamento, sinceramente, que o prêmio de melhor atriz tenha vindo para Jennifer Lawrence, muito embora convincente no açucarado O lado bom da vida (Silver linings playbook), em detrimento da senil e soberba Emanuelle Riva, do filme  Amor, de Michael Haneke (Áustria), contemplado como o melhor filme estrangeiro. A interpretação de Riva, a inesquecível protagonista de Hiroshima, meu amor, de Alain Resnais, pareceu-me absolutamente irretocável, ainda que o filme, como afirmei em coluna recente, não justifique aos meus olhos o prestígio que lhe foi conferido. Veja, abaixo, a lista dos vencedores.
 
Filme: "Argo", de Ben Affleck
Diretor: Ang Lee ("As aventuras de Pi")
Atriz: "Jennifer Lawrence ("O lado bom da vida")
Ator: Daniel Day-Lewis ("Lincoln")
Atriz coadjuvante: Anne Hathaway ("Os miseráveis")
Ator coadjuvante: Christoph Waltz ("Django livre")
Roteiro original: "Django livre"
Roteiro adaptado: "Argo"
Filme estrangeiro: "Amor", de Michael Haneke (Áustria)
Fotografia: "As aventuras de Pi"
Montagem: "Argo"
Figurino: "Anna Karenina"
Maquiagem e penteado: "Os miseráveis"
Documentário: "Searching for Sugar Man", de Malik Bendjelloul
Longa de animação: "Valente", de Mark Andrews, Brenda Chapman e Steve Purcell
Efeitos especiais: "As aventuras de Pi"
Trilha sonora: "As aventuras de Pi"
Canção original: "Skyfall", de "007 — Operação Skyfall", de Adele
Direção de arte (Design de produção): "Lincoln"



 
            
           

Ainda sobre leitores e filmes

Leitor vê crítica pessoal minha ao prefeito Aderilo Filho em coluna recente. Esclareço: sob nenhum aspecto é pertinente tal conclusão. Mesmo estando em lados opostos, como nos últimos anos, Aderilo e eu mantivemos intacta a nossa amizade, separando os fatos políticos da relação pessoal, calcada em admiração e deferência recíprocas. Ao me pedir sugestões (e críticas eventuais) a suas ações nos campos da educação e da cultura, mal  começa o seu mandato, dá, como sempre, uma demonstração de elegância e respeito para com o seu interlocutor. Tem o meu apoio. 
De Natal, RN, o comentário do comandante José Luis: "Faço minhas as palavras da sua leitora de que ao ler suas crônicas dá vontade de sair correndo para alugar o DVD. Aliás, como já comentei anteriormente, embora como criança e adolescente tenha sido um grande frequentador de cinema, como adulto perdi o hábito. Seus textos, no entanto, têm me levado mais ao cinema. Assim foi com o filme da Meryl Streep, com o do Woody Allen, e o DVD "A arca russa". Obrigado por suas crônicas, que evidenciam aspectos que ao menos eu, como leigo, não perceberia, e que me fazem "aproveitar" mais o filme". Grande abraço, Luis.¨

A propósito do filme Os brutos também amam, vem de uma leitora o comentário curioso: "Onde se pode ver razões para falar da traição de Marian?  Vocês homens, hein (sic)?" Fui rever o filme e reafirmo: Não se trata de traição. Fortemente atraída por Shane, ela trava consigo mesma uma luta dolorosa para não ceder aos instintos. São fortes as sugestões vindas da câmera de George Stevens: na cena em que Marian faz curativos no marido e em Shane, quando Starret e o filho Joey se retiram para seus quartos, o forasteiro e Marian ficam a sós pela primeira vez e trocam olhares expressivos. Joey, então, chama a mãe. É quando Shane escuta o garoto dizer a ela que gosta dele quase tanto quanto do pai. E Marian acrescenta: "Gosto dele também". Shane se retira e Marian volta à sala. A câmera acompanha a linha do seu olhar através da porta, um tanto nervosa, dando a ver os sinais da paixão que está por explodir. Eis que o marido aparece e, percebendo o seu nervosismo, indaga: "O que há Marian?" E ela lhe pede que a abrace "com força". Tenta se segurar no que ainda a prende àquela casa.

Mas o filme está carregado de sugestões que explicitam a atração incontida de Marian por Shane. Que dizer da sequência em que este dança com ela durante a festa da Independência? O marido os acompanha à distância, mas a câmera evidencia a sua apreensão, as primeiras perturbações do medo de perder a mulher para o estranho.

Cinema é forma, é linguagem e, como toda linguagem, está impregnado de índices, de signos, de simbologias. Ver "bem" um filme, é perceber os mínimos detalhes do enquadramento, da iluminação, da articulação das partes que compõem a sua estrutura. Um bom filme deve ser visto e revisto. Em Os brutos também amam, na perspectiva do que estamos falando, os movimentos de câmera são decisivos: desde que Shane chega ao rancho, no início do filme, a câmera de Stevens o acompanha, mostra-o de ângulos diferentes, deixa claro que a sua presença vai ocupando todos os espaços da casa. E, rapidamente, o coração de Marian. 

Sobre leitores e cineastas

Do leitor (e amigo) Hilton Holanda, sobre crônica publicada neste espaço, vem a correção: - "O nome do garoto de Os brutos também amam é Joey. Shane é como se chama a personagem interpretada por Alan Ladd". Errei feio, descontado o fato de que citei o filme de memória, referindo-me à influência de meu pai na relação dos westerns de minha predileção. Como admirador da sétima arte, Holanda ainda tece oportunas considerações sobre a destacada participação de Jack Palance no papel do bandido Jack Wilson. E considera evidente a atração de Marian (Jean Arthur), a mãe de Joey, por Shane.
 
De uma leitora do blog, também, o comentário que tomo a liberdade de reproduzir aqui: - "Acho interessante quando você escreve sobre cenas de filmes. Todas as vezes que leio, sinto vontade de ir correndo à locadora para retirar o filme, o que tem acontecido com frequência". E desfecha o e-mail com uma afirmação que afaga o ego do humilde cronista: - "Depois de ler seus textos, vejo o filme com olhos muito mais atentos". Tem, ainda, a curiosidade de saber quais os diretores que mais admiro noutros gêneros.
 
Olha, amiga, a lista não é pequena, que admiro diferentes estilos. Vou citar alguns, que considero os maiores dentre os grandes cineastas de todos os tempos: Ingmar Bergman, decerto o nome de minha preferência. Trata-se de um realizador profundo, autor daquela que julgo ser a mais densa obra do cânone cinematográfico, além de um estilista incomparável. Mas gosto muitíssimo de Antonioni, Kurosawa, Robert Bresson, François Truffaut, algum Godard, Martin Scorsese, Woody Allen e, mesmo, Pedro Almodóvar. E tenho uma profunda admiração por Andrei Tarkóvski, um cineasta russo que tem estreita afinidade com Bergman. Mas como não citar Elia Kazan, Fritz Lang, Hitchcock, Stanley Kubrick, Francis Ford Coppola, Billy Wilder? Gosto muito de Fellini, nomeadamente o da fase neorrealista, e considero Visconti e Rossellini obrigatórios. Todos esses são excepcionais. Esta a razão por que ando amadurecendo a ideia de escrever um livro sobre 'os filmes da minha vida', que a sua curiosidade ainda mais estimula.
 
A propósito de ter citado Andrei Tarkóvski, aproveito a oportunidade para agradecer de público o belíssimo presente do médico e cinéfilo Cesar Lincoln, nada menos que a obra completa desse cineasta extraordinário, de quem aproveito o Carnaval para rever clássicos como O EspelhoAndrei Rublev e o soberbo O Sacrifício, com que encerrou a obra pouco antes de morrer, vitimado por um câncer, em 1986. E agradeço, mais, a preciosa 'pasta' sobre cinema com que o nosso maior crítico L. G. de Miranda contempla os participantes do "sabalincoln" (encontro de cinéfilos em casa de Cesar Lincoln) todos os sábados. É isto!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
           

É Carnaval, mas falo de cinema

Havia na cidade dois cinemas. O "Alvorada", antigo "Cine Sá", onde hoje está a sede do CDL, e o "Cine São José", do outro lado da praça, no prédio que foi preservado e, agora, abriga as instalações do SENAC. Alguns horários, acreditem, eram de tal modo concorridos, que as filas não raro davam a volta no quarteirão, sobretudo no primeiro, onde, de costume, "passavam" os filmes mais concorridos. Ali, pelas mãos do irmão Emídio Neto, à época um cinéfilo fanático, descobri os meus primeiros John Ford, William Wyler, Howard Hawks e Anthony Mann. Curioso é que, como ainda não soubesse ler, acompanhava as imagens, enquanto Emídio, solícito, lia as legendas para mim. Nascia o meu amor pela sétima arte.
 
Naquele tempo  --  curioso!  --, meu pai, um homem simples, de poucas leituras, era também um admirador contumaz do cinema. Gostava, sobremaneira, dos westerns. Na companhia dele assisti aos meus filmes preferidos no gênero: Rio Bravo, Rastros de Ódio, Sete Homens e um Destino e Duelo ao Sol. Este último é um clássico, ambientado no Velho Oeste, que gira em torno do amor de dois irmãos pela mesma mulher. Traz a assinatura de King Vidor, um diretor ousado, capaz de obter resultados estéticos impressionantes. Nunca me esqueci da sequência final, quando, por meio da montagem, Vidor mostra os homens se reunindo... e a imagem vai se completando, prodigiosa, no écran.
 
Hoje, tendo quase todos esses filmes ao alcance da mão, em DVD, revejo-os sempre que posso. Isso me dá um aperto tão grande no peito... Penso no meu pai, lamento que não tenha alcançado esses avanços da tecnologia, chego a imaginá-lo revendo seus filmes preferidos, assistindo a esses westerns maravilhosos sempre que desejasse. Que belo amante do cinema, que belo homem foi meu pai.
 
Engraçado que Duelo ao Sol, um filme dos anos 40, chegou ao Brasil à época do technicolor, lá pela década de 60. Os filmes chegavam aqui muitos anos depois de lançados nos Estados Unidos e na Europa. Lembro que causou um certo frisson, não apenas pela qualidade estética da película, que é indiscutível, mas pelas cenas de sexo, avançadas para aqueles tempos.
 
Mas um filme, sobretudo, me impactou muito no velho Alvorada: Shane, que no Brasil chama-se Os Brutos Também Amam. Conta a história de um garotinho, que vive isolado numa região do Velho Oeste, com os pais. Um dia chega ao rancho um desconhecido e conquista o coração do garoto (e da mãe, nas entrelinhas). Protege a família do garoto contra um bandido poderoso e seus seguidores. Mas, no final, missão cumprida, parte. A cena em que Shane, o lourinho, despede-se dele, é de arrebentar o coração. Em Iguatu, no inesquecível Cine Alvorada, começava o meu amor pelo cinema.