Ainda sobre leitores e filmes

Leitor vê crítica pessoal minha ao prefeito Aderilo Filho em coluna recente. Esclareço: sob nenhum aspecto é pertinente tal conclusão. Mesmo estando em lados opostos, como nos últimos anos, Aderilo e eu mantivemos intacta a nossa amizade, separando os fatos políticos da relação pessoal, calcada em admiração e deferência recíprocas. Ao me pedir sugestões (e críticas eventuais) a suas ações nos campos da educação e da cultura, mal  começa o seu mandato, dá, como sempre, uma demonstração de elegância e respeito para com o seu interlocutor. Tem o meu apoio. 
De Natal, RN, o comentário do comandante José Luis: "Faço minhas as palavras da sua leitora de que ao ler suas crônicas dá vontade de sair correndo para alugar o DVD. Aliás, como já comentei anteriormente, embora como criança e adolescente tenha sido um grande frequentador de cinema, como adulto perdi o hábito. Seus textos, no entanto, têm me levado mais ao cinema. Assim foi com o filme da Meryl Streep, com o do Woody Allen, e o DVD "A arca russa". Obrigado por suas crônicas, que evidenciam aspectos que ao menos eu, como leigo, não perceberia, e que me fazem "aproveitar" mais o filme". Grande abraço, Luis.¨

A propósito do filme Os brutos também amam, vem de uma leitora o comentário curioso: "Onde se pode ver razões para falar da traição de Marian?  Vocês homens, hein (sic)?" Fui rever o filme e reafirmo: Não se trata de traição. Fortemente atraída por Shane, ela trava consigo mesma uma luta dolorosa para não ceder aos instintos. São fortes as sugestões vindas da câmera de George Stevens: na cena em que Marian faz curativos no marido e em Shane, quando Starret e o filho Joey se retiram para seus quartos, o forasteiro e Marian ficam a sós pela primeira vez e trocam olhares expressivos. Joey, então, chama a mãe. É quando Shane escuta o garoto dizer a ela que gosta dele quase tanto quanto do pai. E Marian acrescenta: "Gosto dele também". Shane se retira e Marian volta à sala. A câmera acompanha a linha do seu olhar através da porta, um tanto nervosa, dando a ver os sinais da paixão que está por explodir. Eis que o marido aparece e, percebendo o seu nervosismo, indaga: "O que há Marian?" E ela lhe pede que a abrace "com força". Tenta se segurar no que ainda a prende àquela casa.

Mas o filme está carregado de sugestões que explicitam a atração incontida de Marian por Shane. Que dizer da sequência em que este dança com ela durante a festa da Independência? O marido os acompanha à distância, mas a câmera evidencia a sua apreensão, as primeiras perturbações do medo de perder a mulher para o estranho.

Cinema é forma, é linguagem e, como toda linguagem, está impregnado de índices, de signos, de simbologias. Ver "bem" um filme, é perceber os mínimos detalhes do enquadramento, da iluminação, da articulação das partes que compõem a sua estrutura. Um bom filme deve ser visto e revisto. Em Os brutos também amam, na perspectiva do que estamos falando, os movimentos de câmera são decisivos: desde que Shane chega ao rancho, no início do filme, a câmera de Stevens o acompanha, mostra-o de ângulos diferentes, deixa claro que a sua presença vai ocupando todos os espaços da casa. E, rapidamente, o coração de Marian. 

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