120 anos de Cinema

Hoje, 28 de dezembro, comemoram-se os 120 anos do cinema. Não da invenção tecnológica que permitiu o seu surgimento, ocorrida um pouco antes, mas da primeira sessão, em 1895, no Grand Café do Boulevard des Capucines, em Paris. À frente da empreitada havia dois irmãos, Louis e Auguste Lumière, a quem a história da sétima arte atribui essa que seria uma das maiores conquistas do homem, notadamente daqueles que vivem da Arte ou amam, como eu.
 
Curiosamente, segundo registram os melhores historiadores, coube a Louis Lumière uma das declarações sobre o cinema mais infelizes de que se tem notícia: "Esta é uma invenção sem futuro!", teria afirmado durante o evento. Hoje, para se ter uma noção da tolice que proferira, Star Wars, em cartaz nos cinemas, ultrapassa, na segunda semana de exibição, a casa de um milhão de dólares arrecadados, batendo todos os recordes de bilheteria. Mas muita coisa aconteceu durante esses 120 anos.
 
Comecemos pela primeira sessão. Dez filminhos foram exibidos, dois deles referências obrigatórias para qualquer cinéfilo: A Chegada do Trem à Estação de Ciotat e Saída dos Operários da Usina Lumière. Cinematógrafo era o nome do aparelho que, no começo do cinema, acumulava dupla função, a de máquina de filmar e projetor. Louis e Auguste Lumière, num tipo de ato falho que evidencia a ironia da declaração feita pelo primeiro, recusaram-se a comercializar o invento, embora assediados de perto por Georges Méliès, mágico de prestígio à época a quem caberia, pouco depois, a primeira revolução cinematográfica: Méliès adicionaria ao caráter documental dos primeiros filmes uma sedutora força ficcional, a exemplo do que atestam filmes ainda hoje encantadores, Viagem à Lua, para falar do mais famoso deles.
 
Se aos irmãos franceses coube assinar a poderosa invenção e ao compatriota Georges Méliès imprimir os primeiros procedimentos revolucionários, é a um americano a quem se deve atribuir a descoberta das primeiras estratégias narrativas por que viria se orientar o grande cinema. D. W. Griffith é considerado com justiça o primeiro cineasta de todos os tempos, a quem coube criar uma verdadeira linguagem cinematográfica, estabelecendo as leis mais significativas do cinema clássico.
 
Em O Nascimento de uma Nação (1915), Griiffith inaugura, entre outros recursos estilísticos que permeiam a sétima arte na atualidade, o uso da montagem paralela, o que permitiria a sobreposição de narrativas múltiplas em um mesmo tempo diegético, isto é, dois acontecimentos sendo narrados simultaneamente em lugares diferentes.
 
São clássicos alguns dos filmes que viriam na sequência de O Nascimento de Uma Nação, com justo destaque, por certo, para O Gabinete do Dr. Caligari, de Rober Wiene, e Nosferatu (1922), de Murnau, bem como os filmes de Chaplin, verdadeiras obras-primas do cinema não falado.
 
Como não lembrar, ainda, das contribuições estéticas inovadoras do neorrealismo italiano (filmes rodados na rua, com populares em lugar de atores profissionais e o seu elevado tom denunciador),a partir do obrigatório Roma, Cidade Aberta (1945), de Roberto Rossellini? Da nouvelle vague, francesa, de François Truffaut e Jean-Luc Godard? De filmes absolutamente indispensáveis, como Acossado (1960), verdadeiro marco na história do chamado cinema de autor? Bergman, Fellini, Antonioni, Kurosawa, Glauber, Lang, Kazan... Como esquecê-los?
 
Assim, mesmo numa época dominada pelo blockbuster, os "arrasta quarteirões" pautados pelos recursos da tecnologia pós-moderna, é impossível pensar um mundo sem filmes. Em Fortaleza, Munique, Madri, numa cidadezinha da Rússia, do bairro rico de Nova York ao mais pobre recanto do Irã, que nos daria Abbas Kiarostami, nos lugares mais impensáveis, não surpreende que corações palpitem sob o efeito do sortilégio, da magia, da força lírica de uma arte sublime de ontem e de hoje. Dessa invenção que, na contramão da afirmação irônica de Louis Lumière, há exatos 120 anos, tem seu lugar assegurado no futuro de todas as nações. Brindemos.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
            
           

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