As palavras de Saramago

Admirei o homem tanto quanto o escritor. Poucos grandes artistas terão elevado ao nível da obra a qualidade de sua vida real, a que tínhamos acesso pelas incalculáveis entrevistas, declarações públicas, depoimentos de toda ordem que deu mundo afora. Não sem razão, portanto, li com entusiasmo a coletânea Palavras de Saramago, publicada há pouco, sob a organização impecável de Fernando Gomes Aguilera, pela Companhia Das Letras. Um livro imperdível, afirmo.

A coleção está dividida em três seções, abrangendo o pensamento da pessoa, do escritor e do cidadão, o que constitui um repertório a um tempo profundo e agradável de ideias corajosas, provocativas e engajadas de um dos intelectuais mais completos da língua portuguesa. Do comunista libertário, como gostava de se definir politicamente, ao homem sensível, tomado de amores pela mulher 28 anos mais nova; do cidadão decepcionado com os governantes de sua terra, ao amante da pátria jamais contaminado pelo ufanismo reinante em diferentes momentos da sua história, deparamos com verdadeiras lições de integridade moral, correção intelectual e profundidade filosófica acerca dos mais variados temas. Degustemos.

Sobre a sua coerência, que lhe parece um bem precioso, inalienável, declara: "[...] sempre digo o que penso. Ninguém nunca poderá dizer que eu o enganei. As pessoas têm necessidade de que se fale com elas com honestidade." Humildade: "Amarga-me na boca a certeza de que umas tantas coisas sensatas que pude dizer durante a vida não terão , no fim das contas, nenhuma importância." Equilíbrio: "A nossa vida é feita do que nós fazemos por ela, e do que temos que aceitar que os outros façam." Religião: "Sou um ateu com uma atitude religosa e vivo muito em paz." Caráter: "Nunca cedi às tentações do poder, nunca me pus à venda."

Sobre o amor, seu amor por Pilar del Río, a mulher com quem viveu dos 63 anos até à morte, ocorrida em 2010, aos 88 anos, Saramago faz uma declaração emocionante: "É estranho para mim entender que foi preciso passar 28 anos desde o meu nascimento para que chegasse a pessoa que seria imprescindível em minha vida... [...] Quando a conheci eu tinha 63 anos, era um homem já velho. Ela tinha 36 anos. [...] Agora não posso imaginar minha vida sem ela, não posso conceber nada se Pilar não existisse... Quando ela não está, a casa se apaga. E, quando ela volta, se reativa."

Quando a encontrou pela primeira vez, Saramago parou os relógios da casa. Eram dezesseis horas: "Pilar é o centro da minha vida, desde que a conheci, há dezessete anos. Foi minha a ideia de parar os relógios da casa às quatro da tarde. Isso não significa que o tempo ficou parado ali, mas é como se o relógio marcasse a hora em que começou o mundo." Num tempo de amores vazios, de tantos descalabros no plano ético e humano, ler as 'palavras de Saramago' é reaprender o significado da vida, e procurar vivê-la de modo a poder confessá-la um dia. De cabeça erguida.

2 comentários:

  1. Só um homem como você para dizer coisas tão profundas e intensas sobre o amor. Lindo!!!

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  2. As declarações de Saramago, por uma mulher 28 anos mais nova, não são incompatíves com a racionalidade que sempre demonstrou?

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