A vaidade de Ivan Ilitch

Morávamos nas proximidades da casa do Juiz da Comarca, de cujo nome não me lembro mais. Nunca esqueci, todavia, o que representou para o garoto que fui a sua presença ameaçadora. Se a bola, durante o futebol de rua, achava de cair em sua calçada, qual de nós era suficientemente corajoso para resgatá-la? Nenhum, até que algum transeunte adulto o fizesse, desatento, chutando-a para o campo de peleja. Só então a pelada reiniciava, não raro um quarto de hora depois.
 
Certo dia, a golpes de cinto, surrou um senhor que morava nas imediações de sua casa. Foi mais longe: na mesma semana surrou, supostamente com o mesmo cinto, a mulher do referido homem, figura conhecida, que, um dia, viria a ser vereador na cidade. Todos, que não me ocorrem as exceções, tremiam diante de sua presença, como disse, invariavelmente ameaçadora. Era o homem que prendia, que mandava soltar, que dava sovas, que fazia e acontecia, que pintava o sete, para usar de uma expressão recorrente à época.
 
Muitos anos depois, já amante da literatura, deparei com uma personagem que me traria à memória o aludido juiz. Ah, agora me ocorre o nome deste: chamava-se Carlos. A personagem, do clássico de Tolstói, Ivan Ilitch, um juiz esnobe, vaidoso, desapegado à ética e empavonado por força dos poderes que lhe conferia o cargo: "[...] era-lhe agradável passear com desenvoltura, em seu uniforme talhado por Charmer, junto aos solicitantes trêmulos, que esperavam ser recebidos, e aos outros funcionários, que o invejavam".
 
Em pouco mais de 80 páginas, o livro de Tolstói constitui uma reflexão soberba acerca do abuso do poder, da vaidade desmesurada daqueles a quem cabe julgar os outros, da procura a qualquer custo de "parecer estar bem", atento às vontades de uma sociedade que visa sempre à manutenção de seus privilégios e de suas regalias.
 
Ivan Ilitch é a versão clássica do juiz que se arvora justiceiro, daquele que, dizendo-se "escravo da lei", faz valer o Direito.  A esse propósito, dou voz ao próprio narrador: "Todo o interesse da sua existência se concentrou no mundo judiciário e esse interesse o absorvia. A consciência da sua força, que permitia aniquilar quem ele quisesse, a imponência da sua entrada no tribunal, a deferência que lhe tributavam os subalternos, seu êxito com superiores e subordinados e, sobretudo, a maestria com que conduzia os processos criminais e da qual se orgulhava  --  tudo isso lhe dava prazer e lhe enchia os dias, a par das palestras com os colegas, os jantares, o uíste (jogo)".
 
Um acidente doméstico, no entanto, que a princípio não lhe parecia grave, leva o poderoso Ivan a uma agonia humilhante. Ao fundo de uma enfermidade que o consome, só então o poderoso juiz desenvolve as reflexões que dão à obra de Tolstói a capacidade de atualizar-se sempre: Conclui que a sua vida esteve orientada pelos interesses escusos, pelo faro da perseguição aos desafetos, e, magistral, era tudo "farinha do mesmo saco", incluindo-se aí os seus colegas magistrados. "É como se eu tivesse descendo uma montanha, pensando que a galgava. Exatamente isto. Perante a opinião pública, eu subia, mas na verdade, afundava. E agora cheguei ao fim  --  a sepultura me espera".
 
A leitura de "Ivan Ilitch", esse texto estupendo da literatura russa, que explode em modernidade e, cada vez mais, reatualiza-se em seus muitos sentidos, fez retornar à mente do menino distante as lembranças do juiz Carlos e sua imagem assustadora. Ivan apaixonou-se pela imagem que lhe construiu a burguesia, os ricos do seu tempo, ávidos de manter intocáveis suas vantagens e prerrogativas. E afagava-lhe a alma sentir-se um deles. Como outros juízes do nosso tempo.
 
 
 
 
 
 

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