Um divã para dois

Por uma dessas coincidências curiosas, o tema explorado nas duas crônicas mais recentes do blog é o leitmotiv do mais aturável dos filmes em cartaz esta semana em Belo Horizonte. Em meio a uma das piores safras do grande cinema, marcada por filmes absolutamente medíocres, portanto, deparar com Um Divã Para Dois (Hope Springs, 2010), de David Frankel, não deixa de ser uma opção para o cinéfilo mais exigente. Não que se trate de uma obra excepcional. Longe disso. O filme de Frankel, que se notabilizou com o notável O Diabo Veste Prada, apresenta, quando menos, um roteiro esteticamente bem intencionado, embora sustentado numa fábula já muito explorada por cineastas de diferentes épocas.

Um casal de meia-idade, de classe média tipicamente americana, comemora os 31 anos de casamento da forma menos excitante que se possa imaginar: renovando a assinatura da tevê a cabo. O simbolismo do fato é notório, claro. Até que a mulher, Kay, interpretada por uma Meryl Strep como sempre convincente, num papel pequeno para a grandeza do seu talento, resolve tentar alternativas de reacender o casamento falido com Arnold (Tommy Lee Jones), um sessentão acomodado e sonolento, comprando um pacote de uma semana numa cidade do interior em que está inclusa uma série de sessões com um psicanalista especializado em problemas de casal.

O filme, que se pretende uma comédia romântica, mas fica a meio caminho entre o romance de costumes e o dramalhão (as cenas mais dramáticas não trazem a densidade que o roteirista talvez tenha pretendido), oscila entre momentos bons e ruins, circunstância em que nem mesmo a sensibilidade do diretor é capaz de dar ao filme o ritmo movimentado que é um dos pontos fortes de David Frankel.

Resultado: pude observar que mais de um espectador deixam a sala de projeção na metade do filme. Mas o leitor, a esta altura, haverá de perguntar: - "Por que, então, Um Divã Para Dois pode ser uma opção para o cinéfilo mais exigente?" Tentarei responder: o filme, em que pesem os pontos claudicantes aqui arrolados, tem uma honestidade narrativa que prende o espectador menos afeito aos filmes de ação enlouquecedora que tomam conta do mercado, reeditando o andamento clássico do bom cinema americano.

A direção, muito embora recorra a meios em nada felizes na tentativa de tornar a película mais envolvente, a exemplo de uma trilha sonora que mais lembra a programação de uma rádio FM, é sensível e inteligente na maior parte da duração do filme. A cena em que Arnold e Kay começam a análise com o psicoterapeuta (Steve Carell), marcada pelos vacilos de linguagem dos dois, é de uma naturalidade dramática que salva o filme e prende o espectador na poltrona a partir de então. É quando vemos a importância dos atores para o filme: Meryl Streep, corajosamente transparente em face das marcas naturais para qualquer sexagenária desprovida de atributos físicos notáveis, mostra-se sublime no papel, como dissemos, indiscutivelmente menor que o seu talento, o que parece dar ao filme a dimensão que lhe faltava enquanto constructo artístico. Tommy Lee Jones não fica atrás. Elaborou bem o personagem e sabe explorar o domínio técnico do bom ator que é.

Eivado de clichês, portanto, mas assentado em bases estéticas simples e sensíveis, que fazem a diferença quando atravessamos uma das piores fases da cinematografia de Hoolywood, incapaz de atender aos anseios de um público cinéfilo minimamente refinado, apesar de suas fragilidades, Um Divã Para Dois justifica que se saia de casa para vê-lo.



    

2 comentários:

  1. Olá, Álder!

    Como sempre, belíssima crônica. Fico aqui pensando, depois de sua análise primorosa, o que seria desse filme sem as presenças de peso de Meryl Streep e Tommy Lee Jones?

    Sucesso sempre.

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  2. Álder,
    Excelente crítica, sabe esculpir o que diz. Além da análise do conteúdo do filme, da atuação dos principais atores, ainda observou o que está fora da grande tela, alguns espectadores que abandonam a sala do cinema. Parabéns!

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