A intelectualidade e o PT

Jornal Folha de S. Paulo traz matéria superinteressante em sua edição dessa segunda-feira: "Haddad seria líder da eleição se apenas a USP votasse". Segundo pesquisa realizada com alunos, servidores e docentes da maior e mais conceituada Universidade brasileira, a eleição seria decidida em favor do candidato do PT a prefeito da cidade com significativa vantagem sobre Serra e Russomano. Mas por que chamamos a atenção para a referida matéria? Porque, para o leitor mais atento, ela diz muito sobre o comportamento eleitoral do mais rico e mais importante estado da federação e põe por terra o preconceito, instalado entre setores dominantes da sociedade paulistana, de que a vitória de Dilma Rousseff para presidente, por exemplo, foi "coisa desses nordestinos analfabetos", a exemplo do que afirmam aos quatro cantos do país as viúvas de FHC.
 
Pois bem. Fica provado, mais uma vez, que o Partido dos Trabalhadores continua categórico entre as 'cabeças pensantes' dessa ilha de excelência da intelectualidade brasileira. Bem na contramão, como se vê, do que apregoam as vozes da reação. Os números destoam, outrossim, dos resultados da cidade como um todo, inclusive os últimos apresentados pelo DataFolha, que apontam Russomano à frente com 30% das intenções de voto, seguido por Serra e Haddad com 22% e 18% respectivamente. A pecha de que o PT é partido dos aposentados e contemplados com o bolsa família, em sua grande maioria nordestinos ou filhos de nordestinos nascidos na cidade, portanto, é novamente questionada de forma absolutamente transparente. Não, o PT continua sendo um partido em que setores importantes da inteligência nacional acreditam, em que pese a tentativa desesperada de obter dividendos eleitoreiros com o julgamento do mensalão.

Na mesma edição, a Folha noticia a morte do pensador Eric Hobsbawm, autor dos clássicos A Era das RevoluçõesA Era do Capital e A Era dos Impérios, livros seminais da moderna historiografia política, aos 95 anos, em Londres. Que relação, todavia, estou querendo estabelecer entre uma notícia e outra? Explico-me: Hobsbawm, que foi um dos mais respeitados estudiosos da atualidade, em entrevista divulgada pelo próprio jornal, tece considerações elogiosas ao comportamento político do Brasil nos últimos anos, evidenciando a importância alcançada pelo país em face da relações internacionais. Diz ele a uma dada altura de sua entrevista: - "[...] politicamente a América Latina é cada vez mais livre. Washington jamais voltará a exercer a influência de antes, tampouco a apoiar golpes e ditaduras como fez no passado. [...] O Brasil tem papel central nesse processo, uma vez que o México se transforma cada vez mais em apêndice dos EUA".
 
Aos que sonham com retrocessos, bem na linha do que faz a grande imprensa no Brasil, Hobsbawm deixa um recado insofismável: - "O ex-comunista que condeno é aquele que militava em grupos de esquerda e que hoje tem uma bandeira única, a de ser anticomunista apenas, esquecendo-se do resto das ideias pelas quais lutava. Também me entristece ver intelectuais jovens, que não passaram pela história dessas lutas, repetindo e tentando tirar proveito desse mesmo tipo de propaganda". Li o depoimento desse monstro sagrado da intelectualidade mundial, infelizmente morto nessa segunda-feira, e me ocorreu lembrar dos artigos publicados pelos Gabeiras 'da vida', tão cheios de ódio e indignação contra Lula e o PT, partido pelo qual, não faz muito, ergueram armas (literalmente!) em defesa de um Brasil mais justo e mais livre. Quanta incoerência! 
 
 




2 comentários:

  1. Texto escandaloso de bom, garoto. Você está cada vez melhor. Parabéns! Essa gentalha vai ter de engolir, com osso e tudo!

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  2. Olá, Álder!

    Texto impecável.

    Confesso estar cheio de tais manifestações preconceituosas contra os brasileiros das regiões Norte e Nordeste. Especialmente esta última. Manifestações sem coerência nenhuma.

    E digo mais, à medida que São Paulo vai se desindustrializando, processo já em curso, maiores serão estas amostras de desrespeito e ignorância retumbante (...)

    Abraços e sucesso sempre.

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