Bergman entre amigos

Rever amigos queridos é sempre uma experiência adorável. Esta semana, por força da presença de Déborah Dantas (namorada) em BH, tive a alegria de conviver "full time" com alguns desses amigos especiais que não encontrava havia uns dez, doze anos. À frente, Lúcio e Raquel Dantas, irmão e cunhada de Déborah, como ela médicos. Grandes médicos, aliás, duas referências entre os maiores oftalmologistas do país. Não à toa viajaram mundo afora para dar cursos e proferir palestras. Uso o verbo, assim, no pretérito, porque, ouvi de viva voz, estão decididos a ficar mais 'em casa', a partir de agora, a fim de aproveitarem mais e melhor a bela vida que construiram juntos. Merecem.
 
Entre um vinho e outro, que Lúcio é soberbo conhecedor da matéria, ficamos a jogar fora conversas que giram, o mais das vezes, em torno dos tempos de Campina Grande, onde fomos contemporâneos numa fase de nossas vidas  que já vai longe. E muito sobre poesia, cinema e viagens. Lúcio e Déborah, aliás, na esteira do pai médico e escritor, Ademar Dantas, são exbuberantes como contista e 'poeta', respectivamente, dos quais guardo de cor coisas da melhor qualidade.
 
A cenas tantas, decidimos rever dois ou três Bergman, o que veio em boa hora, haja vista que Déborah, que foi casada com um sueco, e conhece bem o país nórdico, trouxe bons acréscimos ao que já sei sobre o realizador de Persona, nesses dias em que me tenho dedicado a 'fechar' o texto de minha pesquisa sobre o cineasta. Depois de assistirmos ao esplêndido Sonata de outono, ela aprofunda a análise do relacionamento entre pais e filhos na Suécia, tema central do filme.
 
Daí ao 'amor em Bergman', foi desdobramento natural da conversa. Como é tema recorrente neste espaço, arrisco ir adiante, deixando aqui duas ou três palavras sobre o assunto: Acho que poucos cineastas foram tão a fundo sobre os conflitos entre amantes como Ingmar Bergman, desde os primeiros títulos, lá por meados dos anos 40. Depois, vieram Uma lição de amor, Noites de circo, Sonhos de mulheres, Sorrisos de uma noite de amor, Morangos silvestres, No limiar da vida, A hora do lobo, Vergonha, A paixão de Anna, A hora do amor, Gritos e sussurros, todos mais ou menos sobre os problemas do casal, ao lado, claro, das profundas sondagens sobre a existência de Deus, a solidão e a morte.
 
Em Cenas de um casamento, contudo, Bergman elevou ao paroxismo a dor da separação, o fim do amor entre os casais, a necessidade difícil e pungente de ter de recomeçar a vida sem o outro. O curioso é que Bergman, tantas vezes incompreendido, excede no modernismo de sua arte, e dá voz à mulher, analisando com imparcialidade que apenas se esconde sob um véu transparente, o seu olhar feminista. Talvez por isso, e com um tom de perdão, dedique-o a Liv Ullmann, sua ex-mulher e atriz principal do filme. Mas a este, assistiremos hoje, pelo fim da tarde. Vale rever.  
 
 
 
 
           

Um comentário:

  1. Prezado Álder

    Obrigado pelas abalizadas "dicas" sobre os filmes de Bergman, muito claras e oportunas. Fico contente em ve-lo tão feliz com o reencontro de tão sólidas amizades (e namorada) depois de tanto tempo. Um forte abraço. Estou certo de que ao chegar amanhã na Cacuera 615, vou me deparar com uma bela moldura na sala, com o retrato do último e-mail que lhe enviei ... rsrsrs ..Um forte abraço.

    José Luiz

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