As aventuras de Pi

Tenho sobre o filme uma atitude dúbia: vale como espetáculo, o que lhe confere, enquanto realização estética, uma função a um tempo poética e lúdica capaz de tirar o fôlego. Mas é demasiado artificial para ser considerado um bom filme em termos cinematográficos tradicionais. Escrito pelo roteirista David Magee a partir do livro de Yan Martel (supostamente plasmado em Moacir Scliar), As Aventuras de Pi, com direção do sempre surpreendente Ang Lee (O Tigre e o Dragão, Cavalgada com o Diabo), atingiu em menos de um mês a surpreendente marca de US$ 160 milhões em bilheteria, superando, pois, os US$ 120 milhões gastos com a sua produção.
 
O filme está estruturado em flashback, uma vez que a sua história é narrada pelo protagonista adulto (interpretado por Irrfan Kahn, o mesmo de Quem quer ser um milionário? e O espetacular homem aranha) anos depois dos fatos terem acontecido. Mas é a presença do estreante Suraj Sharma como Pi adolescente, que concentra o que resta de mais significativo no filme, a odisseia do garoto em alto mar, depois que um naufrágio mata seus pais e todos os ocupantes de um navio.
 
A partir daí, quando são decorridos mais de quarenta minutos de filme, começa o espetáculo de imagens em 3D com direito a efeitos absolutamente sedutores, desses que arrebatam crianças e adultos, embora a narrativa se torne arrastada e repetitiva em tantos aspectos que, pude constatar, chega a inquietar mesmo os pequenos, que não raro querem deixar a sala antes do fim.
 
Para os cinéfilos mais "tradicionais", portanto, o filme vai se tornando chato e, por volta dos 60, 70 minutos, a luta de Pi para sobreviver em meio a tempestades e na companhia pouco amistosa de um tigre de bengala (criação em CGI) já não convence, mesmo que a trama levante alguma discussão em torno da questão religiosa pouco comum: Pi é indiano, católico e muçulmano (pode?), e, nos momentos de maior aflição, invoca a ajuda de um Deus totalmente ocidental.
 
Se até Scorsese não resistiu aos apelos da animação digital, contudo (realizando o belíssimo Hugo Cabret), nada muito excepcional em Ang Lee enveredar de vez pela tecnologia do 3D, cujo resultado, diga-se em tempo, está muito longe do intrigante O Segredo de Brokback Mountain, com que conquistou o Oscar de melhor filme dois anos atrás. 
 
 
 
 
           

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