Amante à moda antiga

Hóspedes de Hildernando e Fátima, que, elegantes e simpáticos, receberam-nos com o carinho de sempre, Ticiana e eu passamos o Dia dos Namorados em Iguatu. À noite, entre um vinho e outro, deparamos com o médico e amigo Paulo de Tarso, que, leitor atento, reclama a ausência deste colunista na edição de sábado do jornal A Praça. Como prometido, aqui estamos de volta.
 
Pois bem, a referência ao Dia dos Namorados não é gratuita. Explico-me: a data, este ano, coincide com a divulgação de pesquisas no mínimo inquietantes sobre a relação entre homens e mulheres, notadamente entre namorados e marido e mulher. Vejamos: segundo Julia Becker, da Universidade de Marburg, cujas conclusões do trabalho coincidem com as de sua colega Janet Swim, da Universidade da Pensilvânia, atitudes do homem antes consideradas positivas no perfil masculino, como abrir a porta do carro, puxar a cadeira ou pagar a conta no restaurante, ceder o lugar em lugares públicos etc., servem para legitimar a dominação 'dele' em relação a ela. Pode?
 
O tema, como se vê, é muitíssimo polêmico, o que justifica que o debate tenha circulado o mundo em poucos dias e as posições assumidas sejam as mais desencontradas. Segundo pude ver em matéria publicada na revista Carta Capital, em sua edição de 29 de maio de 2013, por exemplo, algumas declarações beiram a estupidez. Destaco aqui o depoimento de Bianca Andrade, uma estudante de Psicologia do Rio Grande do Norte: - "O cavalheirismo é uma forma de submissão mais eficaz encontrada pelo patriarcado machista. Funciona melhor que o machismo literal." Em outro momento, ela diz: - "Para que abrir uma porta que eu sou capaz de abrir sozinha? É um romantismo falso, relacionado à ideia de que a mulher necessita de um homem para sobreviver."
 
Como intencionasse escrever sobre a matéria, tive antes o cuidado de ouvir algumas mulheres, Ticiana, a namorada, à frente, para quem a declaração de Bianca cheira a "coisa de mulher mal-amada", avaliação consistente quando vinda de quem, como ela, é mulher independente e extremamente bem-resolvida em todos os aspectos.
 
Mas, acrescente-se lenha à fogueira, houve quem me dissesse o contrário, bem na linha do que diz sobre o assunto uma estudante da USP, Carol Peters, 21, para quem é sempre desconfortável ser alvo de atitudes gentis do homem, como pagar a conta à mesa de um restaurante.
 
Quanto a mim, na impossibilidade de discorrer amiúde sobre a matéria, por escassez de espaço, fico com Camille Paglia, a ensaísta americana, que defendeu a tese de que o feminismo (o feminismo reafirmado pela pesquisa) foi um tiro no pé para a mulher: - "O encanto está na diferença entre homens e mulheres, queremos direitos iguais na sociedade, não que os homens sejam como elas."  
 
Num tempo em que os jovens parecem um tanto desatentos a importância da gentileza na construção da personalidade, a exemplo do que não raro se pode ver por aí, o debate torna-se delicado e pode ensejar mais uma inversão de valores, com a grosseria imperando ante o cavalheirismo. Cavalheiro ou canalha?, oportuno destacar, é como se intitula a reportagem da Carta Capital. Para o bem ou para o mal, por muito tempo ainda, que me dá prazer (e a mulheres resolvidas como Ticiana), continuarei abrindo a porta do carro e a puxar a cadeira no restaurante. Um "amante à moda antiga", como na canção do Rei. E você?
 
 
 
 

4 comentários:

  1. Parabéns pelo lúcido texto, Álder. Essas colocações dessa pesquisas são sinais de insegurança, falta de amor, quem sabe querer bancar a diferente, ou mesmo simplesmente querer aparecer. Ridículo querer classificar atitudes de carinho como "manobras" de subimissão. Continue abrindo a porta do carro e puxando a cadeira no restaurante, que você faz muito bem !!!
    Um forte abraço
    José Luiz

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    1. Sinto-me honrado com o assíduo leitor e amigo!
      Abraço!

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  2. Comungo da rápida definição de Ticiana, a namorada. O depoimento é certamente de uma mulher mal amada, mesmo! Com toda luta que travamos diariamente pela igualdade de gênero, pelo espaço que a duras penas conquistamos que marca a nossa história, ainda com as primeiras lutas de caráter "feminista" até a vulgar marcha das vadias (que a meu ver é uma tremenda estupidez querer ganhar respeito e espaço de forma tão baixa pra não dizer banal) na verdade nós mulheres, independentes ou dependentes somos todas necessitadas de gentilezas masculinas que estão cada dia mais raras!

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    1. Agradeço-lhe pelo comentário e pela visita ao blog. Sua posição reflete o que, felizmente, mulheres 'resolvidas' sentimentalmente pensam o que é mais significante numa relação saudável e equilibrada. Este tipo de feminismo, a que me refiro na crônica, mais fortalece o preconceito e o sexismo que sabemos ainda existir, aqui e além.
      Abraço do blogueiro e amigo!

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