O adeus de um ícone

Morreu na terça-feira, 1 de outubro, Giuliano Gemma, aos 75 anos. Não figurava entre os atores de maior prestígio, embora tenha atuado, de forma convincente, em mais de 100 filmes, não raro contracenando com nomes respeitados do melhor cinema, Burt Lancaster, Kirk Douglas, Henry Fonda, Catherine Deneuve e a extraordinária Liv Ullman, por exemplo. Sem esquecer, claro, musas adoradas, como Rita Hayworth. Por último, além das séries para a tevê italiana, fez uma ponta em Para Roma com amor, de Woody Allen.
 
Foi, num tempo que já vai longe, o meu ídolo no western, ou mais precisamente no primo pobre das grandes produções americanas conhecido como western spaghetti, em cujo gênero fez sua primeira aparição em meados dos anos 60. Antes, compusera o elenco de clássicos, na linha de produções monumentalistas, como Ben-Hur (1959), de William Wyler, e esteticamente irrepreensíveis, como O Leopardo (1962), de Luchino Visconti.
 
Confesso que senti a sua morte com o coração de um menino, numa experiência de temporalidade que me levou, tão logo li a notícia, à década de 70, quando, na companhia de papai ou do meu irmão Emídio, muitas vezes de ambos, vivi as primeiras grandes emoções advindas do sortilégio do cinema, na minha Iguatu querida. Como que num passe de mágica, ocorreu-me lembrar de alguns desses filmes inesquecíveis, realizados à base de convenções estéticas a um tempo simples e sedutoras. Filmes marcantes do spaghetti italiano, a exemplo de Uma pistola para Ringo ou O dólar furado, os dois de 1965.
 
Ato contínuo, foi inevitável dirigir-me à estante para ter nas mãos, e revê-lo tantos anos depois, o DVD de uma dessas produções dialeticamente infantis e irresistíveis, marcadas pelo exagero dos artifícios e pela singeleza das soluções formais, O dia da ira, não conhecido quanto os da série "Ringo...", mas um daqueles de que mais gosto, desde a nostálgica tarde de domingo em que o assisti pela primeira vez, numa sessão vesperal do velho Cine Alvorada. 
 
O roteiro, como é próprio do gênero, é simples, linear, sem complicações dramáticas, bem ao gosto do imaginário popular: Scott (Gemma) é um desafortunado rapaz a quem cabe limpar as ruas da cidade de Clifton, no Arizona. A pobreza material de Scott, a inexistência de raízes familiares minimamente capazes de lhe dar um sobrenome, condiciona-o a submeter-se à humilhação e aos maus-tratos de todos na pequena cidade. Até que conhece o temido Frank Talby (Lee van Cleef), de quem recebe as sete lições da pistolagem, uma delas, mais tarde usada contra seu preceptor, numa sequência marcante do filme: "Quando atirar num homem, mate-o. Do contrário ele um dia vai matá-lo!"
 
O final foge à lógica do estilo, posto que Scott joga fora a arma com que enfrentara o perigoso Talby e, de mãos dadas com o cego Bill, cruza a rua deserta de Clifton, numa sugestão de que, também no subgênero do verdadeiro western americano, é possível ter um bom coração. Giuliano Gemma, que vencera a tantos e imponderáveis duelos, no cinema, não sobreviveu ao desastre de automóvel que o levou de nós nesse início de semana, em Roma. Ficam, para seus admiradores, as recordações de um estilo inconfundível, do sorriso de dentes perfeitos  --  e do seu incomparável glamour.
 
 
 
            
           

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