A disciplina do amor

No belo Um homem, uma mulher, de Claude Lelouch, há uma fala de Anne, a personagem irrepreensivelmente interpretada por Anouk Aimée, que considero de uma profundidade impressionante, se contextualizada, claro, ao que estabelece o roteiro do filme: - "Ele morreu, mas para mim ainda não!" Na hipótese de que o leitor não tenha assistido à película, voltemos ao que se passa com a personagem. Viúva precoce, Anne, uma roteirista de cinema, conhece Jean-Louis Duroc, um corredor de carro também viúvo. Sentem-se atraídos e tentam começar uma relação sincera e feliz, mas, na primeira experiência de cama, ela não consegue... As lembranças do marido estão vivas em seu pensamento.
 
Anne diz isso numa estação de trem, em Deauville, pouco antes de partir para Paris, quando questionada por Jean-Louis (Jean-Louis Trintignant): - "Por que você me disse que seu marido estava morto?" Acho que aí está o segredo por que é tão difícil recomeçar a vida quando permanece vivo dentro de nós o objeto amado. Nem mesmo a morte da vida real corresponde à morte dos sentimentos. Lelouch alterna imagens do casal na cama, em preto e branco, com os variados planos em cores de Anne e o ex-marido no auge do amor que os uniu um dia. A vida é assim. A lembrança dos momentos felizes, a alegria das viagens juntos, o chope à beira-mar, os pequenos desentendimentos, quase sempre por motivos banais e a felicidade das reconciliações, o cheiro da pele, a linguagem do corpo na cama, a voz, o sorriso que fazia arrepiar seus pelos, tudo tudo vai continuar aceso dentro do peito, até que o tempo recomponha a ordem natural das coisas e o mundo em volta readquira a lógica de antes.
 
Ocorre-me uma crônica de Lygia Fagundes Telles de que gosto muito. A disciplina do amor, é como se chama. Um cão, todo fim de tarde, vai à esquina esperar o seu dono. Faz isso durante anos. Um dia, o rapaz é convocado para a guerra e morre nas circunstâncias de um bombardeio. O cão, a exemplo do que fizera sempre, vai todas as tardes esperá-lo, até que a noite chegue e volte para casa desolado. O tempo passa, as coisas se normalizam e mesmo a noiva casa com um primo. A família, natural, volta a ver a vida de outra forma. O cachorro, não. Todas as tardes, ali está ele, o rabo balançando, ansioso. Mas o rapaz não vem. Um dia, sob uma chuvinha fina de verão, encontram-no morto, o focinho na direção de sempre. A disciplina do amor.
 
O filme de Lelouch, que revi ontem com minha filha Carol, termina em aberto. Depois da frustração na cama, Anne decide retornar a Paris. Na despedida, acontece o diálogo a que me reportei. Mas, inconformado, Jean-Louis resolve ir de carro esperá-la na plataforma estação. Os dois, emocionados, correm ao encontro um do outro  --  e o filme termina com a imagem congelada dos dois, enlaçados. Foram felizes para sempre, há de concluir o leitor/espectador. Não vou contar. Vinte anos depois, Claude Lelouch, esse poeta das perdas e dos reencontros, retoma a história com o filme Um homem, uma mulher 20 anos depois, os mesmos atores, num dos pontos mais elevados de sua filmografia. A vida, a disciplina do amor. Mas isso vai ser tema de uma outra crônica. 
 
    


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