Discurso do povo e outro discurso

As Olimpíadas Rio 2016, até pouco antes do seu início severamente criticadas pelos inimigos de Lula, que consideravam a iniciativa do ex-presidente de trazer o evento a todo custo para o país uma "irresponsabilidade", transformaram-se no mais irretocável motivo do "orgulho nacional", notadamente do governo ilegítimo de Michel Temer, que, indisfarçadamente, empenha-se em tirar proveito disso.  

O fato reedita o que já fora verificado em relação à Copa do Mundo, e serve para ilustrar o "macunaimismo" do nosso povo, herói sem nenhum caráter (sem características, carnavalesco, afeito à improvisação e à irreverência), na visão sensível de Mário de Andrade.

Nada, contudo, que tire o brilhantismo do mais importante acontecimento esportivo do mundo, inclusive (talvez principalmente) da participação absolutamente impressionante dos brasileiros no local das competições, na cidade olímpica e arredores. É linguagem pura a manifestação dos torcedores, codificada em bandeiras, slogans, faixas, gritos de guerra, rostos e corpos pintados, prática simbólica carregada de sentidos e mensagens de pertencimento a um país de fato surpreendente, mesmo quando está, como agora, moralmente, à beira do caos.

Na linha do que consideram alguns dos maiores teóricos da cultura e da representação, é pela construção do discurso simbólico que se afirma a identidade de um povo, mesmo quando, na perspectiva do que se disse acima, essa identidade se expressa na ausência de tipificações reducionistas pré-estabelecidas, a exemplo de "ser inglês", "francês", "alemão" etc.

É a representação da imprevisibilidade, da indisciplina, do senso de improvisação, da malemolência, do "jeitinho" que dá ao povo brasileiro sua identidade e constrói o discurso de um país múltiplo, diversidade visível nos estádios, praças e ruas do Rio de Janeiro. Nesse sentido, pois, é que não poderia ser outra a cidade escolhida, não apenas pela generosidade da natureza, montanhas, praias e florestas que embelezam a capital fluminense, mas pelos traços humanos que dão à cidade o feeling brasileiro.

O melhor, todavia, é saber que essa carnavalização, na contramão do que professam ideias conservadoras infelizmente dominantes, não contradiz a vocação política e democrática dos brasileiros, algo não menos positivamente representado nas vaias a Michel Temer e na força incontornável dos protestos, em que pesem as medidas adotadas com vistas a atenuar a insatisfação do país em face do golpe indisfarçável que se concretizará por esses dias. Ou concretizar-se-á, para não esquecer, no uso da mesóclise, outro discurso.

 

 

 

 

 

 

 

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