As palavras de Brecht

A vitória de Rafaela Silva no judô, nossa única medalha de ouro até aqui, nos jogos Olímpicos 2016, enseja aos mais atentos uma reflexão importante: a judoca brasileira é pobre, negra, mulher, homossexual e militar. Traz em si, portanto, realidades humanas diversas, o que naturalmente ensejou a utilização dos seus méritos pessoais por diferentes tendências ideológicas.
Afinal, é a vitória resultado de um projeto político mais atento às desigualdades sociais ou decorrência da disciplina de uma corporação rigorosa, capaz de dar ao país uma fisionomia mais responsável e intransigente, na contramão das inclinações irreverentes do nosso povo? Ou reflete um "ippon" (golpe perfeito nas artes marciais japonesas) no discurso homofóbico de segmentos infelizmente expressivos da população? Ou, noutra hipótese, levanta-se como um protesto indignado contra o preconceito racial?
Após sua derrota nos jogos de 2012, em Londres, Rafaela foi alvo de insultos racistas pela internet. Mas foi também hostilizada por sua origem pobre. Ela nasceu na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, em meio à miséria e a problemas sociais os mais diversos, a violência inclusive: "... tinha de correr para dentro de casa quando começava o tiroteio", disse à imprensa pouco depois do pódio.
Não faltaram, à época, declarações intolerantes por sua escolha sexual  --  Rafaela vive há três anos com a ex-judoca Thamara Cezar, a quem confia as obrigações de casa e a administração de sua imagem nas redes sociais.
O que sobressai, no entanto, passa ao largo dessas manifestações tão contraditórias entre si. O que de fato existe é um país perdido, frustrado em suas vontades e esperanças, um país desencantado com os rumos que tomou um projeto de governo, pela primeira vez, efetivamente, voltado para o combate das desigualdades sociais e para a redistribuição da renda, mas que se deixou contaminar pela desgraça da corrupção e pelos vícios do poder a qualquer custo.
Por outro lado, é o mesmo país que assiste impotente ressurgir das cinzas o que temos de mais autoritário, neofascista, manipulador, corrupto, oportunista, hipócrita, entreguista, valores e práticas emblematicamente personificados na figura de Michel Temer, um presidente espúrio.
Um país assim precisa urgentemente de heróis, de alguém que lhe devolva por qualquer caminho o orgulho de ser brasileiro. Se não for Neymar, que seja a Marta ou a Rafaela Silva, pouco importa. O indispensável é que exista alguém em quem se possa depositar um pouco das nossas utopias, dos nossos sonhos. Se no esporte essas transferências são capazes de sublimar as nossas misérias, o que resulta positivo, em alguma medida, na política é extremamente perigoso. Triste de um país que precisa de heróis, já dizia Bertold Brecht.
 
 
 
 
           

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