Para além do capital

Desde a queda do muro de Berlim, com a simbologia que isso necessariamente implica como colapso do modelo socialista vigente na antiga União Soviética e países a ela atrelados, ao que se soma a atual crise dos governos de esquerda na América Latina, é natural que o discurso neoliberal se mostre fortalecido e se dissemine a ideia de que não existe mesmo alternativa ao capitalismo.

Diante disso, mais do que nunca se faz necessário que a esquerda (mesmo debaixo de uma fragilidade política e teórica inegável, a exemplo do que se vê no Brasil hoje) tente fundamentar sua utopia em bases acadêmicas consistentes e capazes de ensejar buscas de alternativas ao que se nos apresenta como a definitiva vitória de um modelo excludente e perversamente desigual. Nessa perspectiva é que livros como Para Além do Capital, do húngaro István Mészáros constitui uma leitura por demais recomendável.

Com o sugestivo subtítulo Rumo a uma teoria da transição, o livro de Mészáros não é uma novidade nos meios acadêmicos: a sua tradução para o português, a partir do original inglês de 1995, para que se tenha uma ideia, é de 2002, ano de lançamento no Brasil sob os cuidados editoriais da Boitempo, em inícios do governo Lula. Mas, produzido, como disse, no contexto de uma aparente derrocada do socialismo, trata-se de uma refinada revisão dos pressupostos básicos do marxismo. Não o marxismo de O Capital, cuja fundamentação teórica toma como referência os primórdios de uma estrutura de espoliação do trabalho (ainda que Marx tenha racionalmente feito alusão à história da luta de classes nesse e noutros escritos seus não menos importantes, com destaque para o manifesto de 1948). Não à toa, assumidamente, Mészáros, ao escrever seu livro extraordinário, levou a efeito o que já fora um projeto nunca realizado de Georg Lukács, outro intelectual húngaro indispensável para quem se dedique a ler com correção a grande literatura de esquerda: investigar o capitalismo hoje, o mundo contemporâneo com sua lógica igualmente perversa e fatalmente condenada a inviabilizar-se por si mesmo num futuro que, infelizmente, não se pode prever com segurança.

A tarefa hercúlea do intelectual húngaro tomou-lhe, quando menos, duas décadas de rigorosa interpretação do marxismo, do que resulta essa reflexão incontornável acerca do capital em suas diferentes formas. A esta altura, faz-se necessário evidenciar o primeiro passo de Mészáros na sua empreitada: estabelecer diferenças entre o que se deve entender por "capitalismo" e por "capital". A confusão conceitual entre um e outro, afirma, terá sido talvez a razão mais decisiva para o desmoronamento do socialismo desde a Revolução de 1917 até as movimentações mais recentes como as de Cuba e da Venezuela. Segundo esclarece com objetividade no seu texto, "o capital antecede ao capitalismo e é a ele posterior", isto é, por capitalismo deve-se compreender uma das muitas formas de exploração do trabalho, uma de suas possibilidades históricas.

No prefácio à edição brasileira, escrito na Inglaterra em 2000, István Mészáros reporta-se ao Brasil como uma potência em termos regionais, referindo-se à repercussão da crise 1998-1999 nos Estados Unidos e na Europa. Aqui, pontualmente, seu livro faz uma leitura otimista do protagonismo brasileiro no contexto da América Latina, em cujo cenário impõe-se como uma força capaz de se contrapor aos interesses imperialistas americanos e constituir um exemplo vitorioso para os demais países do continente.

Em face do que se vê hoje, no entanto, Para Além do Capital, embora imprescindível para a elaboração de um pensamento de esquerda atualizado, capaz de superar os desacertos de práticas socialistas possíveis e equivocadas, traz em si o germe da contradição, o que, diga-se em tempo, mais ainda evidencia a sua importância como exercício teórico. O que se vê, para além de constituir uma falsa consciência de inviabilidade do modelo socialista, é que o processo se dá em meio a forças históricas (dialéticas!) naturalmente antagônicas, nunca como uma demonstração inquestionável da vitória do imperialismo hegemônico mundial. Para o autor desse livro absolutamente importante, sobremaneira diante do que se faz perceber no Brasil hoje, "somente um movimento socialista de massas tem condições de enfrentar o grande desafio histórico que nos espera no século decisivo à nossa frente". Na perspectiva do que adverte Daniel Singer, aludindo aos equívocos de uma "esquerda desnorteada", Para Além do Capital reforça indicativos de que "a renovação do socialismo esteja mais próxima do que pensamos". Um livro raro sob todos os aspectos.

 

 

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