Vergonha e tristeza

No filme Flores Raras, de Bruno Barreto, há uma cena antológica. Elizabeth Bishop ouve no rádio a notícia do golpe de Estado contra o presidente João Goulart, desloca-se até a janela do apartamento, na Av. Atlântica, em Copacabana, e repara num grupo de homens jogando futebol na praia. Ela não se contém e fala para si mesma: "Que país é este, em que um presidente é destituído por um golpe e as pessoas, indiferentes, jogam futebol na praia?"

Fico imaginando o que diria a poeta americana ao saber que, de novo, fato semelhante acaba de ocorrer no Brasil e comemora-se isso com uma desfaçatez que a um tempo envergonha e causa indignação.

Flores Raras, uma das mais felizes realizações do cinema nacional dos últimos anos, tem como pano de fundo o golpe de 1964, e a história gira em torno do relacionamento homossexual entre a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop. Indo a fundo na discussão do tema, no que se preserva dos clichês com que tradicionalmente se tem tratado os relacionamentos gays no cinema, Barreto, para além de fazer um filme esteticamente irretocável, pela beleza da fotografia e escolha de estratégias narrativas que põem em evidência tratar-se de um craque na matéria, expõe com sutileza a sua percepção do que representa (ou, no nosso caso, deveria representar) a destituição de um chefe de Estado por força de mecanismos que ferem de morte a democracia.

O espanto de Bishop, que nem era uma mulher tão comprometida com questões políticas, constitui um instante sublime do filme e toca a consciência do espectador de forma indelével. Lembro que, ao sair do cinema, ouvi comentários reiterados sobre a fala da personagem. Ela reflete uma marca do caráter brasileiro que muitas vezes se nos passa despercebida, mas não aos olhos de quem, vindo de fora, percebe nos primeiros contatos alguns dos nossos problemas mais atávicos: a superficialidade política, tomando aqui o termo no seu sentido mais vertical, de que decorrem muitas e muitas das nossas mazelas. 

O espetáculo do impeachment, ou do golpe urdido contra 54 milhões de brasileiros, dá bem a medida de como entendemos a atividade política e a transformamos numa prática desavergonhada de interesses pessoais e grupistas, numa troca de favores que enlameia o que deveria ser uma arte ou ciência de organização coletiva pelo bem comum. Para não falar, claro, no que era mesmo o objetivo mais frontalmente perseguido pelos canalhas do PMDB e companhia, qual seja o controle da operação Lava Jato que mantem na intimidade de suas malhas investigativas nomes de peso de parte significativa dos senadores golpistas.

Barreto expõe no seu belo filme as fraturas morais de uma elite inescrupulosa, indiferente aos meios de que lança mão sempre que seus privilégios e regalias venham a ser minimamente afetados, movida, invariavelmente, pela sordidez no trato com a coisa pública e na utilização de expedientes que lhe assegurem, a qualquer custo, a manutenção de vantagens advindas, direta ou indiretamente, do poder político. Nesse sentido, aliás, são recorrentes as cenas em que a escritora americana demonstra sua inquietação em face do descaramento de alguns "notáveis" do Brasil de meados do século XX, notadamente nos encontros sociais em que pode perceber como a elite brasileira se comporta diante da realidade política do país, o golpe militar, por exemplo. Atente-se para o fato de que se trata de uma americana de perfil psicológico típico, o que poderia resultar num leitura menos crítica em face da destituição de um presidente identificado com os movimentos populares do país e escolhido, pelos serviços de informação ianques, como uma ameaça para os interesses dos Estados Unidos no continente.

Quanto ao que se viu no Senado entre 29 e 30 de agosto, diga-se, e ao que se lhe seguiu, mais que o estranhamento que tomou conta de Elizabeth Bishop ao ver brasileiros jogando futebol nas areias de Copacabana, indiferentes aos acontecimentos que arrastariam o Brasil para o abismo escuro de vinte anos de ditadura, o que se deve sentir é um misto de nojo e vergonha, de desencanto, de desesperança... Ao que se deve somar, por inevitável, um sentimento de profunda tristeza, pela forma como parte de um país se curva (e parcialmente festeja!) o retrocesso, pisoteando, como matadora de si mesma, as conquistas democráticas e os avanços sociais dos últimos 13 anos.

 

 

 

 

 

 


 

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