O homem sem sono

Acabo de ler o inquietante 24/7 Capitalismo Tardio e os Fins do Sono, de Jonathan Crary. Conhecia o autor de outras áreas da atividade acadêmica, pois se trata de um respeitável estudioso da arte moderna e teoria da arte da Universidade de Columbia, autor, entre outros, do incontornável Suspensões da Percepção.

É nesse último que Crary dedica-se a examinar o fenômeno da percepção em nova chave, avançando sobre as relações entre percepção, sensibilidade, pesquisa científica e estética no chamado capitalismo industrial, pondo por terra algumas contribuições já muito discutidas no campo da fenomenologia tradicional. Mas é sobre o primeiro, 24/7 Capitalismo Tardio e Fins do Sono, que gostaria de tecer na coluna de hoje algumas considerações. Vamos lá.

Trata-se, como disse, de uma das mais viscerais críticas ao modelo capitalista, algo, como sugere o próprio título da obra, capaz de tirar o sono de qualquer um.  Segundo Crary, cuja teoria está fundamentada em criteriosos estudos, a disponibilidade para consumir, trabalhar, compartilhar e responder (os dois últimos verbos dizem respeito aos vícios da comunicação virtual), 24 horas por dia, 7 dias por semana, é a perspectiva cada vez mais real por que se orienta a sociedade contemporânea.

O livro mostra de forma convincente como os interesses do capital conduzem o homem para abandonar um dos seus direitos inalienáveis, a necessidade do repouso. Para tanto, não é preciso ir longe: Crary fundamenta sua tese em pesquisas já conhecidas nos Estados Unidos e que têm por objetivo encontrar a fórmula para o "homem sem sono", na esfera, em princípio, do que tem sido possível no campo das técnicas militares.

É dessas pesquisas, antes restritas às guerras, que se pretende chegar ao mundo do trabalho e do consumo, do que resulta essa perturbadora visão do futuro.

Os tablets, os celulares, os leitores de texto, iPads etc., são a primeira prova dessa relação desumana entre o homem e a tecnologia avançada, meio inicial pelo qual o capitalismo vai condicionando cada um de nós ao consumismo desenfreado e à necessidade de trabalhar cada vez mais a fim de que se possa usufruir dos "encantos" colocados no mercado a cada instante.

É o avanço irrefreável do modelo econômico dominante. Valendo-se de filmes, produção artística e, o que é mais relevante do ponto de vista científico, na linha do que existe de mais significativo produzido por intelectuais de diferentes momentos históricos (Marx, Arendt, Agamben, Foucault, Deleuze etc.), Crary coloca diante do leitor a necessidade de reflexões as mais instigantes.

Para se ter uma ideia do que isso quer dizer, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos vem gastando quantias inimagináveis para entender como certas espécies de aves (a exemplo do pardal de coroa branca) suportam realizar voos entre o Alasca e o México, ininterruptos, durante sete dias e sete noites. O objetivo, evidencia Crary, é obter conhecimentos aplicáveis ao homem.

Não se trata, como se pode ver, de um exercício de diletantismo acadêmico, tampouco de uma banalização do que há de mais preocupante em torno do futuro da humanidade. O livro se sustenta em uma argumentação consistente, intelectualmente responsável, o que não só justifica a sua leitura, mas, acima de tudo, contribuirá positivamente para a discussão de alguns dos temas mais caros à vida de cada um de nós. Recomendo. 

 


 

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