De volta à escuridão

Sinto decepcioná-los, mas minha consciência manda revelar: ando um tanto apaixonado pela música de Amy Winehouse. Antes de parar para escrever esta coluna, fiz minhas as palavras da cantora inglesa numa entrevista que li há pouco: "Oh, meu Deus... O que há de errado comigo? Tem (sic) alguma coisa errada comigo." Pois é. A insistência das execuções no rádio e na tevê, desde sua morte há coisa de um mês, mais o estímulo da minha filha Carol, que sempre a admirou muito como cantora, fizeram-me atentar para a qualidade musical do seu trabalho e, acima de tudo, a força dramática de sua interpretação. Impressionante.

Não bastasse a tristeza que é saber da morte de uma jovem talentosa (e de forma revoltante), o que, por si só, já comove o coração da gente, com o passar dos dias - reforço! -, fui percebendo o que a obra da cantora, interrompida tão prematuramente, representava do ponto de vista estético. Daí a querer saber um pouco mais sobre ela, como foi sua vida, que tipo de educação recebeu dos pais, como dizia a minha mãe, 'foi um pulo'. E logo me descobri lendo o que me chegava às mãos sobre Amy, assim, com muita intimidade. Amenidade à parte, na contramão do que sempre achei que ocorresse aos jovens vitimados pela droga, Amy Winehouse teve uma vida familiar tranquila, sem traumas vindos da infância.

Ela nasceu e cresceu numa família israelita, em Southage, nos arredores de Londres. Tinha com o pai uma relação carinhosa, um pouco menos com a mãe, a quem descreve como fria diante da sua presença: - "Quando eu era pequena, se entrasse num cômodo em que meu pai estava, ele me beijava e fazia carinho. [...] ela era um pouco menos", disse, já adulta. A imprensa, aqui se excluindo os tabloides sensacionalistas, deu a ver que, por trás do mito, nada houve de muito anormal que pudesse levar Amy ao desajuste psicológico que marcaria tragicamente seus últimos dias. Fala-se, e é este o argumento mais aceitável, que teve uma vida amorosa complicada, sob o domínio de um psicopata por quem teria sido apresentada às drogas. Nada disso importa mais, Amy Winehouse morreu da forma mais revoltante, aumentando a constelação dos astros atormentados que cairam na mesma roubada, a exemplo de Hendrix, Joplin e Holiday.

O fato é que tenho ouvido muito a sua música, em casa, no carro, a caminho do trabalho, em todos os lugares em que um pouco de música e um coração pulsando nos ajudam a tocar a vida, a vivê-la com mais amor e da forma mais saudável. Como em milagre, a mesma música que não foi o bastante para aliviar as dores e a falta de esperança de uma jovem tão bonita, sensível, vibrante como a autora das belíssimas Love is a losing game e Back to black. Agora, Carol, filha querida..., agora entendo por que Amy Winehouse, com sua voz, cobriu o mundo como um tsunami. Que pena que tudo tenha terminado assim.

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