Colette, sem apologia da transgressão

"Entre o real e o imaginado, há sempre o lugar da palavra, a palavra magnífica e maior que o objeto."
(Colette)
À procura de um mote para a coluna alusiva ao Dia Internacional da Mulher, tenho a curiosidade de ler Histórias de mulheres, de uma das minhas escritoras atuais preferidas, a espanhola Rosa Montero, sobre quem já escrevi mais de uma vez neste espaço. Como tudo que escreve, a exemplo de Paixões e o imperdível A louca da casa, para citar dois de que mais gosto, o livro é delicioso, em que pese discordar da 'seleção' de mulheres feita pela autora. Conversando sobre isso, outro dia, alguém me perguntou: - "Quem você escolheria para figurar no livro, além das que lá estão?" Veio à boca, num segundo, o nome de Colette, que ninguém à mesa conhecia.

Sidonie Gabrielle Claudine Colette, como se chamava, nasceu na Borgonha, em 1873. Em menino, lembro que alguns de seus livros fizeram sucesso no Brasil. Hoje, confesso, acho que não se encontram em tradução e os li, pela primeira vez, quando de uma viagem à França. Gigi e Chéri, que, já à época, causaram-me admiração, sobretudo pelo estilo, prodigiosamente carregado de imagens. A propósito, não faz muito, Julia Kristeva, a prestigiada psicanalista e linguista, publicou O gênio feminino, a vida, a loucura, as palavras, em que analisa a força de sentidos e de linguagem com que Colette explora o tema da sexualidade, o que, como diz, proporciona "experiências metafísicas no leitor". É verdade.

A vida de Colette, vim a saber depois, quando li Colette, uma biografia, de Allan Massie, adquirido como raridade num sebo, em Piracicaba, foi de fato marcada por experiências no mínimo extravagantes para a França ainda controlada pelo Código Napoleônico em que viveu entre 1873 e 1994, conservadora e falocêntrica. Teve amantes, homens e mulheres, protagonizou cenas de lesbianismo em espaço público, impôs-se diante dos maridos e exerceu cargos profissionais, então, impensáveis para mulheres, como o de repórter.

Mas, o que me parece curioso, jamais se permitiu ser usada como porta-voz de movimentos sexistas. As suas transgressões tinham um feeling diferente, faziam parte de um projeto interior de vida independente, livre de qualquer orientação exterior. Nesse aspecto, foi além, por exemplo, da escritora Simone de Beauvoir, uma das eleitas no livro de Rosa Montero. Nas obras que criou (e que tinham muito de projeção autobiográfica, claro!), pontuam casos de adultério, amores impossíveis, relacionamentos espantosamente desiguais do ponto de vista da idade dos amantes, extravagâncias a granel. Tudo, no entanto, narrado com o estilo sedutoramente poético - a palavra precisa, como a despertar cheiros e sabores -, que se tornaria uma de suas marcas como ficcionista.

Não à toa, sua vida e sua obra têm inspirado inúmeras adaptações para outras linguagens estéticas, como filmes e musicais. Seu último livro, Gigi, produzido pouco antes de morrer, aos 72 anos, supostamente é uma dessas adaptações mais conhecidas. Mas, a fim de que não me entendam mal, o fato de escolhê-la para motivo de uma crônica em homenagem à mulher, na contramão do que exorbita nos seus romances, prende-se ao fato de que Colette, com um talento e uma determinação em tudo impressionantes, foi um ser humano para além de qualquer limite de tempo e de espaço. Como poucos (poucas?) foi capaz de enfrentar e vencer um mundo desumanamente masculino.





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