O pesadelo de Kampusch

Na cabeceira da cama de Carol, minha filha, deparo com o recém-lançado, no Brasil, 3096 dias, as dramáticas memórias de Natascha Kampusch, a adolescente que permaneceu em cativeiro durante oito anos, num dos mais comoventes casos de sequestro de que se tem notícia. Não contendo a curiosidade, coisa de todo bom bibliófilo, folheio as primeiras páginas do livro e - em minutos, sou absolutamente tragado pela impressionante história dessa menina.

Em 2 de março de 1998, quando tinha 10 anos, Kampusch, que acabara de se desentender com a mãe, sai à rua e é surpreendida pelo engenheiro de telecomunicações Wolfang Priklopil, que a arrebata bruscamente e a mantém como prisioneira em cativeiro doméstico até 26 de agosto de 2006, quando, aproveitando-se de um descuido do seu algoz, contando agora 18 anos, Natascha Kampusch foge para a liberdade. A história, contudo, assim resumida, não tem a profundidade dramática que, só lendo 3096 dias, se pode dimensionar com exatidão.

Durante esses longos, intermináveis anos de suplício, a jovem foi submetida a abusos inomináveis, tamanha a vileza e a crueldade desse monstro, que, como se ficou sabendo, pouco depois atirar-se-ia à frente de um trem. O livro é absolutamente desconcertante, obrigatório, pelo que é capaz de revelar sobre a condição humana, quer na perspectiva do psicopata, quer na perspectiva dessa jovem a quem foram infligidos os mais cruéis tratamentos físicos e psicológicos.

Em suas 225 páginas, no entanto, o livro de Kampusch traz muito mais sobre a realidade humana para além das fronteiras do cárcere, revelando o lado torto de todos nós, as pessoas 'normais' com algumas das quais, nas circunstâncias de uma fuga desesperada, teve de conviver naquele instante dramático. Depois de uma primeira tentativa frustrada de ajuda (negaram-lhe um celular com o qual pudesse se comunicar com a polícia) a fugitiva invade o jardim de uma casa e dirige-se a uma mulher que se achava à janela: - "Por favor, me ajude. Fui sequestrada, chame a polícia!" E o que houve em resposta: - "Por que você veio justo a minha casa? Espere na cerca viva. E não pise no gramado!"

Nos limites de uma crônica de jornal, é-me impossível dizer, com rigor, a força do livro de Kampusch. Lê-lo, como o fiz meio que por acaso, é uma experiência muito mais que aconselhável e enriquecedora. As memórias do pesadelo vivido por essa moça, de quem se roubou o melhor da vida, muito mais que tocar o nosso coração, ensina como deveria ser o mundo que, em alguma medida, cabe a cada um de nós construir. Recomendo.

2 comentários:

  1. Álder, como uma boa livreira vou procurar a leitura desse livro... Além do que me interessa, principalmente através dos caminhos de uma prazerosa leitura, saber mais sobre os caminhos do 'humano'.
    Beijos! Apareça na Nobel! :D

    ResponderExcluir
  2. Olá, Cinthia! Obrigado pela 'visita' e pelo comentário. Vou aparecer, sim!
    Beijo!

    ResponderExcluir