Uma história de amor

De Camaragibe, Pernambuco, a propósito de crônica publicada neste espaço, vem o comentário: - "Li emocionada seu texto. Joca foi meu primeiro namorado, o primeiro beijo [sic], o primeiro sonho de menina. Soube hoje de sua morte. Passados quase 50 anos, desde que recebi dele uma aliança de compromisso, ainda guardo a lembrança de sua alegria e irreverência." Antes de fazer a citação, claro, fui autorizado a fazê-lo pela leitora Vera Portela, com quem tive a preocupação de entrar em contato tão-logo li o seu comentário.

Vera, como disse, mora em Camaragibe e, para os que não leram o texto a que se refere, faz alusão à crônica que escrevi em homanagem ao amigo João Francisco do Amaral Neto, morto no sábado, 22, em Iguatu, após sofrer um AVC. O que seria apenas um comentário sobre textos aqui publicados, no entanto, assumiu significados curiosos. Vera Portela tem 63 anos e namorou com João Francisco, como diz, há quase 50 anos. A história é interessante.

Os dois se conheceram bem jovens, namoraram, ficaram apaixonados e tinham tudo para viver um amor sem reservas, não ocorresse o obstáculo já imortalizado pela grande literatura, desde os trovadores: a oposição da família. João, irreverente desde a mais tenra idade, bebia e tinha a fama de brigão. Segundo Vera, adolescente, era capaz de acabar uma festa pelo simples fato de que a namorada fosse objeto da atenção mais demorada de qualquer rapaz. E, diz, "brigava bem, à época com o corpo sarado e bela musculatura." Ademais, não trabalhava e nada era indicador de que viesse a fazê-lo um dia, sem contar, o que era mais relevante aos olhos da mãe de Vera, que não gostasse de estudar.

A fim de conquistar a confiança da pretensa sogra, nosso amigo deu um tempo na bebedeira, recolheu-se em estudos e ingressou com méritos na Universidade Federal de Pernambuco. Enquanto, isso, é óbvio, o casal se encontrava às escondidas. Concluída a faculdade, João procura a mãe de Vera e revela as suas melhores intenções: fazer a moça feliz. Qual não foi a sua decepção: a mulher tinha razões que a própria razão desconhece para rejeitar o rapaz. Desiludido, mas com o orgulho ferido, o nosso Romeu junta os panos e resolve partir para outras plagas, distantes da mulher amada.

Por obra do talvez ou do quem sabe, chega a Iguatu, nos grotões do Ceará. Estabelece-se como veterinário (o mais talentoso de que se viria a ter notícia na região), casa-se com moça de boa origem, constitui família e torna-se uma pessoa querida de todos. Desde a morte da mulher, há coisa de uns seis, sete anos, pouco mais ou menos, a vida de João, todavia, jamais foi a mesma e, até onde sei, a nossa personagem nunca mais se reencontrou consigo mesmo. Morreu, como sabem, semana que passou.

50 anos decorridos desde o primeiro beijo, o primeiro sonho de menina [...], desde que recebera dele uma aliança de compromisso, pouco sabendo de João e do seu paradeiro, na contramão das tantas coisas acontecidas (casou, teve filhos, netos, foi feliz, separou), no recolhimento e no silêncio do que diz ser, quase, um claustro, Vera ainda guarda no peito, acesa, a chama do que foi um amor que se tornou impossível; a lembrança da alegria e da irreverência do homem amado. "Joca (é assim que o tratava) está gravado no meu coração", disse Vera no seu e-mail.

3 comentários:

  1. Oi Álder,você foi fiel ao que se passou,como bom escritor que é. Apenas num detalhe,no finzinho do texto,ou você não entendeu ou não fui clara nos meus escritos.Apesar dos conflitos com minha mãe,continuamos o namoro até que brigas,nossas mesmo,nos afastou.Segui minha vida,casei,tive quatro filhos e cinco netos,fui feliz,separei e hoje vivo só e tranquila. A lembrança de Joca claro,nunca saiu do meu coração mas como um sonho, um tempo feliz que vivi.Tive muita vontade de encontra-lo,conversar sobre nosso caminho pela vida,não foi possível.
    Simmmmm,tenho 64 anos agora.
    Beijinhos para você,estarei acompanhando seu blog pois gostei muito dos seus textos.

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  2. Desculpo-me pelo que o texto pôde ensejar de mal-entendido, o que talvez se prenda ao fato de o texto trafegar entre a crônica jornalística e a literatura. Fica aqui, de público, o seu esclarecimento. E o meu.
    Respeitosamente,
    Álder Teixeira

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  3. Que nada menino,já não te disse que adorei o texto? Precisamos de umas pinceladas de cor, a realidade as vezes é tão sem graça.
    Beijos

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