Orgulho e preconceito

Mal "fechadas" as urnas, e a onda de insatisfação explodiu Brasil afora. Gente que votou em Aécio, claro, e que não se conforma com o fato de o PT ter garantido, pelo voto democrático, mais quatro anos no poder. Vitória apertada, é verdade, que o elemento "bombástico", a que me referi na coluna de sábado, aconteceu (a matéria sórdida da Veja), embora não tendo sido capaz de reverter o que previra em Não ao ódio e à intolerância.
 
Desde então, as redes sociais e alguns dos nossos mais prestigiosos jornais, para não falar da Globo, exorbitam matérias as mais odientas contra o resultado da eleição. Mas há,felizmente, gente que sabe dignificar o ato de escrever, a exemplo de Luiz Fernando Viana, cujo texto, Orgulho e Preconceito, teve repercussão nos quatro cantos do país, e que tomo a liberdade de reproduzir no espaço da minha coluna de hoje. Bom proveito!
 
RIO DE JANEIRO - Tratado como pornográfico e pervertido, Nelson Rodrigues alegava que era preciso mostrar no palco nossos "pântanos íntimos". Exorcizando-os no teatro, conseguiríamos a civilidade fora dele.
As reações ao resultado da disputa presidencial mostram que estas eleições cumpriram um objetivo rodriguiano: trouxeram à luz os pensamentos mais sombrios.
 
É pedagógico ver os abastados vociferando contra os "pobres", os "ignorantes", os "vagabundos". Quem já tinha perdido qualquer esperança no PT pôde constatar que as mudanças dos últimos 12 anos foram significativas.
 
Quando pessoas tiram suas imbecilidades do recato recomendável e gritam que estamos numa "ditadura", que o PT é "terrorista" e que os iluministas paulistas --que já elegeram Maluf, Pitta, Quércia, Fleury e sofrem com a seca-- devem ser separados dos "atrasados" nordestinos, cujo PIB cresce mais do que os das outras regiões (2,55% no segundo trimestre ante queda nacional de 0,6%), algo se revela.
 
Domésticas têm carteira assinada; jovens negros entram na universidade e disputam os empregos; aeroportos estão cheios. O país do quartinho de empregada está enfraquecido. Há quem não se conforme.
 
O "país dividido", mais um clichê no rol da imprensa, não surgiu agora, mas há uns cinco séculos. Está é ficando mais nítido. Ainda bem. Galvão Bueno e o coração brasileiro batendo ao som do Olodum não existem. A Família Scolari tomou de 7.
 
É pena que alguns colunistas disseminem o preconceito. Insinuaram até que eleitores de Marina e Dilma poderiam não saber usar a urna eletrônica. Entrevistam poucos bípedes, mas conversam muito com o "mercado". As Marias Antonietas estão perdendo a cabeça, e o povo já anda comendo brioches. Que assim continue, apesar da crise econômica no Sudeste. 
                           

 
      

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