Os dois brasis e a sucessão

O segundo turno da sucessão presidencial, mais que a virada de Aécio Neves, agora à frente de Dilma Rousseff, aponta para uma evidência extemporânea: o país, pelo menos em termos eleitorais, está cada vez mais dividido entre ricos e pobres. O fenômeno, que parece se confirmar a partir do que está detalhado no resultado do Datafolha, divulgado na quinta-feira 9, enseja o ressurgimento de uma terminologia cara a uma teoria sob muitos aspectos superada, o marxismo, segundo a qual a história da sociedade é a história da luta de classes. Simplificações à parte, vamos ao que diz a pesquisa.
 
O candidato do PSDB aparece em expressiva vantagem nas regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste, onde a concentração da renda é mais acentuada. Se as duas últimas dispensam maiores comentários, em face dos PIBs que detêm, o Centro-Oeste surpreende com mais do dobro de seus eleitores situados nas classes alta e média quando comparada ao Nordeste, especificamente, onde metade da população é composta de excluídos ou pertencentes à classe média baixa.
 
Dos chamados votos válidos, que excluem nulos e brancos, 74% dos que declaram votar em Aécio Neves estão situados na classe alta, e 67% entre os da média alta. Esses percentuais, somados, constituem 21 pontos do total de intenções de voto para o candidato tucano, contra 10 pontos da candidata Dilma Rousseff, que arrebanha 64% de apoio entre os excluídos, mais 58% entre os pertencentes à classe média baixa, ou seja, 38% do total de eleitores.
 
Mais curioso, ainda, é o fato de que, entre os eleitores pertencentes à classe média intermediária, aquela que mais cresceu nos 12 anos de governo do PT, Aécio e Dilma aparecem praticamente empatados, 15 pontos para o tucano e 16 para a atual presidente. Não é muito dizer que estão situados nesse estrato aqueles que melhoraram de vida mas não conseguiram com isso se desvincular dos interesses da classe dominante, isto é, em termos eleitorais, colocam-se a serviço de propostas de governo que apenas tendem a aumentar as diferenças de que, em alguma medida, serão eles mesmos vítimas.
 
A sucessão presidencial, assim, configura uma nítida separação socioeconômica, o que justifica a previsão de que o Nordeste, em se confirmando uma vitória do candidato Aécio Neves, amargará tempos difíceis, principalmente à altura de uma História em que não se usam mais coroas nem existem brilhantes a ser vendidos, conforme pretensão de conhecido imperador.
 
A concluir pelo que apontam as evidências, na contramão do que fez o governo do PT nos últimos anos, e que fundamentalmente o distingue do governo de FHC, posto que nunca em tempo algum tantos benefícios foram proporcionados à região, com redução dos índices de miséria e elevação das condições reais de vida, nem mesmo os empresários nordestinos terão o que festejar no caso de uma vitória de Aécio Neves. Ou se pode negar que os olhares 'presidenciais' se voltarão, mais do que nunca, para os interesses do Brasil rico em detrimento do Brasil pobre? As bolsas de valores que o digam.
 
 
 

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