Não ao ódio e à intolerância

Premido pelo horário de fechamento da edição do jornal, escrevo esta coluna horas antes do último debate entre os candidatos a presidente. Corro o risco, por isso, de errar em alguma previsão pessoal do que será a eleição de domingo 26. Na hipótese de não ocorrer um fato bombástico, Dilma deve se reeleger com uma diferença em torno de 10% dos votos válidos. Considerando-se que se trata da mais disputada das eleições, pelo menos desde a redemocratização do país, urge tentar identificar o que, em tese, pode explicar a reviravolta em favor da candidata do PT. Antes, no entanto, miremos aspectos relevantes do que dizem os números dos principais institutos de pesquisa nos levantamentos dessa sexta-feira.
 
Aécio cai entre os eleitores das classes alta e média alta. Tinha 74% e 67% das intenções de voto, agora são 64% e 58%, respectivamente. Não é uma perda pequena, uma vez que nesses segmentos sociais encontram-se 30% do total de eleitores, o que representa para o candidato do PSDB uma perda de 2 dos 4 pontos de sua queda, por exemplo, na pesquisa do Datafolha. O tucano desliza para baixo, ainda, entre os mais ricos: tinha 21, agora são 19 pontos. Soma 14% entre os eleitores de condição financeira intermediária e 14% nos de renda mais baixa.
 
Segundo o Datafolha, isso indica que se Aécio tinha mais votos entre os pobres que Dilma entre os ricos, o que lhe assegurava a dianteira de duas semanas atrás, a situação agora se inverteu em favor de Dilma Rousseff. Nos três níveis do estrato (classe média alta, intermediária e média baixa) a candidata do PT soma, agora, 12, 17 e 24 pontos, respectivamente.
 
Esses resultados, mais a sua expressiva vantagem nas classes C e D, dão à Dilma Rousseff 53% das intenções de voto, contra 47% de Aécio Neves. Essa diferença, sabe-se, é maior segundo os números do Ibope, que dá à candidata à reeleição uma dianteira de 8 pontos. A menos de 48 horas da votação, momento em que produzo a coluna de hoje, reforço, ouso arriscar que Dilma Rousseff será reeleita nesse domingo 26.
 
Não desprezando o que é de fato mais relevante para a mudança de cenário, economia relativamente estável (só os economistas da pior imprensa dos países em desenvolvimento ou desenvolvidos insistem em negar), menor índice de desemprego em 12 anos, inflação sob controle, níveis de satisfação dos brasileiros em alta, programas vitoriosos de combate à desigualdade social, projeto de futuro mais exequível etc., sem contraditórios que mereçam um mínimo de credibilidade, na linha do que tem procurado fazer Aécio Neves, outros fatores não deixam de contar como explicação para a realidade eleitoral do país na reta de chegada. Vamos a eles.
 
- "Dilma!, vá tomar no c...!" (Expressivo número de ricos paulistas, no estádio do Corinthians, referindo-se à uma mulher, e presidente da República)
- "Fora Dilma. E leve o PT junto" (Adesivo odiento disputado entre os riquinhos de grandes cidades brasileiras, Fortaleza, por exemplo)
- "Gente que vota em Dilma porque pobres e desinformados!" (FHC, em entrevista à Folha de S. Paulo)
- "Por que não ocorre uma guerra ou o vírus do ebola não acaba com esses mortos de fome nordestinos?" (Mote paulista recorrente entre os militantes do PSDB nas redes sociais)
- "Candidata, a senhora é leviana, mentirosa!" (Aécio Neves, dirigindo-se a Dilma Rousseff em debate na BAND)
- "Vamos acabar com o PT e sua corja!" (Grito de guerra de militantes do PSDB Brasil afora)
 
Esses e outros fatos, que servem para evidenciar a truculência, a falta de discernimento político, de conteúdo ideológico, de tolerância com as diferenças, de compreensão dos valores fundamentais da existência humana, de densidade propositiva, de incapacidade para reconhecer avanços e conquistas etc., em alguma medida, explicam o que se confirmará amanhã. O não ao ódio e à intolerância vencerá.
 
 
 
           

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