Um país doente II

Quando falei, neste mesmo espaço, que o Brasil está doente, não faltou quem me criticasse, num tipo de ufanismo cego e tolo. Retomo a minha afirmação, hoje, a propósito de algumas incontáveis manifestações na internet em torno da agonia de Dona Marisa Letícia, cuja morte definitiva, vitimada por AVC hemorrágico, será anunciada nas primeiras horas desta manhã de sexta-feira, ocasião em que sento diante do computador para produzir a minha coluna semanal.

À mesa do café da manhã, há pouco, entre amigos, desavergonhada e impiedosamente, afirma um deles: "Pena que não leva com ela o marido!" Outro repassa, sob o domínio de uma felicidade insana, a mensagem que acaba de receber  --  e que expõe imagens de uma tomografia da ex-primeira dama, ao que se soma um texto impiedoso de um profissional da saúde "festejando" a irreversibilidade do quadro.

Anteontem, soube que uma pessoa conhecida gastara as horas do dia lendo e postando comentários perversos sobre a mulher do ex-presidente Lula. Curioso: teve em casa um caso de AVC que quase a deixa viúva, para não falar dos dramas financeiros e psicológicos que a doença inesperada ocasionou-lhe, e aos filhos. Fico imaginando: o que há de aproveitável numa mente dessa? Em que sentido pulsa no seu coração algum substrato do que se define como humanidade num homem ou numa mulher?

Na Folha de S. Paulo, edição de ontem, 2 de fev., aparece com destaque, sobre o mesmo fato, uma matéria de levantar pelos: Uma médica reumatologista postara no grupo "MED IX", o que logo se espalharia pelos milhares de grupos de WhatsApp Brasil afora, dando contas de que a mulher de Lula estava no pronto-socorro com diagnóstico de AVC (Acidente Vascular Cerebral) hemorrágico de nível 4 na escala Fisher, dos mais graves do ponto de vista neurológico.

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, essas informações haviam sido partilhadas entre médicos que participam do grupo "PS Engenho 3". O que segue a isso é assustador: A médica comenta que a paciente "ainda" não havia sido atendida na UTI, ao que o colega, residente em urologia, acrescenta: "Ainda bem!". A médica abre-se em gargalhada.

Dona Marisa Letícia Lula da Silva nasceu de uma família muito pobre. Aos 9 anos, trabalhava como babá. Adolescente, como operária, numa fábrica. Ficou viúva do primeiro casamento, do qual tem um filho. Há 43 conheceu Luiz Inácio Lula da Silva, ao lado de quem passaria o resto de sua vida. Identificada com o marido por suas convicções ideológicas, Dona Marisa passou a militar em favor dos menos favorecidos. Liderou movimentos femininos contra a prisão de sindicalistas. De suas mãos, literalmente, surgiu a primeira bandeira do Partido dos Trabalhadores.

Vítima do ódio e de perseguições de uma Justiça indigna do nome que recebe, figura no processo da Lava Jato como ré, acusada da compra ilegal de um apartamento que ninguém (depois de anos de investigação) pode provar ser propriedade do marido. Como afirmou um respeitável jornalista  brasileiro, "A intenção era puramente política, de bater, bater, bater em Lula, até que arriasse emocionalmente". Não tinham olhos (nem sensibilidade humana) para enxergar nela a mulher lutadora, a mãe zelosa, a avó carinhosa. Nada disso importa para um coração impregnado de ódio. Era a mulher do inimigo.

Quanto mais conheço os homens, mais estimo os animais. A frase, se não me falha a memória, é do escritor Alexandre Herculano. Ela me vem à lembrança agora. Esse exercício continuado da perversidade dos homens é que matou Dona Marisa Letícia. Um país doente. 

 


 

2 comentários:

  1. A humanidade psrece padecer enferma. Energias deletérias a que devemos estar atentos para não se deixar contaminar.

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  2. Atitudes desumanas, sórdidas e bestiais.
    Se não chegamos ao fundo do poço como Nação, certamente estamos muito próximos disso.

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