Doce, pueril e belo

Eis que se confirma o que já era esperado: La La Land: Cantando Estações, de Damien Chazelle, em cartaz nos cinemas da cidade, desponta como o grande favorito ao Oscar de melhor filme de 2017. A obra tende a se tornar, no entanto, o principal objeto da polêmica que, desde sempre, toma conta dos meios cinematográficos. Não por sua indicação ao prêmio de maior prestígio, o de melhor filme, quase um consenso, mas pelo fato de que o musical surpreende como o novo fenômeno em número de indicações, 14, igualando-se a Titanic (1997) e A Malvada (1950).

O filme é uma homenagem aos grandes musicais de Hollywood, reeditando, sob este aspecto, o que fez em 2011 Michel Azanavicius em relação ao cinema mudo, com O Artista, que arrebatou à época cinco estatuetas. Na opinião desse humilde colunista, todavia, o filme de Azanavicius é bem superior a La La Land, cujo roteiro beira ao banal. Mas, como me coloco ao lado daqueles que consideram que uma obra de arte é, antes de tudo, "forma", a produção de Damien Chazelle reúne, de sobra, qualidades condizentes com a repercussão obtida até aqui. É sobre algumas dessas qualidades que gostaria de falar.

Desde as primeiras aulas, qualquer estudante de cinema sabe que a montagem é o elemento mais específico da narrativa fílmica. É ela que estabelece a ordem, a duração, que dá sentido a cada plano na perspectiva do todo que é mesmo a sua razão de ser  --  e que a torna um componente indispensável para que se chegue a bom termo na realização de uma obra cinematográfica. Trata-se do que se convencionou chamar de "montagem narrativa", um procedimento básico, sem o qual não existirá o filme, pelo menos em se tratando da narrativa fílmica clássica: concatenação de planos numa ordem lógica e/ou cronológica que visa a contar uma história e desenvolver a ação dramática que a sustenta. Até aí, pois, nada que não se encontre em qualquer filme, mesmo em se tratando daqueles desprovidos de qualidades estéticas que os diferenciem e tornem dignos de admiração. Não é o caso, pois.

Em La La Land, depara-se com um tipo de montagem que constitui, não um meio, mas um fim. É o que se pode definir, com dose consciente de licença crítica, como "montagem expressiva", aquele tipo de montagem que, por si mesma, tem por objetivo exprimir ideias, emoções, sentimentos, tornando o todo fílmico muito mais que uma junção clarividente de partes (planos, cenas, sequências etc.), o encadeamento de ações segundo uma relação de causalidade. E nisso está, ao meu ver, a grande força da poética cinematográfica de Damien Chazelle. 

Não sem razão, o filme ocasiona, aqui e além, uma certa desorganização intelectual do espectador, não por incompetência no trabalho de edição, pelo contrário, pelo requinte com que tece a narrativa, levando-o (a ele, espectador) a jogar com as múltiplas forças de sentido surgidas da imaginação do realizador, o que torna o filme ainda mais autoral. Se a história é pobre, se o roteiro, sob o aspecto da fábula, deixa a desejar, a forma de narrá-la é viva, sedutora, poética.

As transições, os esbatidos, as elipses de espaço e tempo, o rigor do enquadramento, as panorâmicas, os travellings, o oblíquo de uma angulação e outra, a beleza da luz, ao que se soma uma trilha de roubar o fôlego, fazem de La La Land uma aula de cinema. A sequência final, mesmo apoiada em soluções já muito conhecidas, é irretocável. Um belo filme, não obstante o que tem de pueril e o doce exagerado do enredo.


 

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