As palavras do príncipe

Em meio ao espetáculo geral em que se tornou o país, por força da qualidade rasteira da expressiva maioria dos políticos brasileiros hoje, bem a exemplo do que se pôde ver na histórica sessão da Câmara dos Deputados que deu início ao impeachment da presidente Dilma ("Pela minha mulher Letícia, pelos meus filhos, Juliana, Pedro e Lucas, por Lucki, minha cachorrinha, pela minha cidade, Flores, por Deus, pelo Brasil.."), chama-me a atenção o festival de citações como forma de dar substância aos mais estapafúrdios argumentos e bizarras interpretações dos acontecimentos políticos que dão ensejo ao golpe de 2016. Mesmo jornalistas de sólida formação intelectual, na ânsia de fortalecer suas ideias, não fogem à regra do que se tem visto.
Em edição recente do jornal Folha de S. Paulo, para ficar num caso que me ocorre enquanto escrevo a coluna, o respeitado Elio Gaspari, um dos mais entusiastas do golpe, referiu-se à fala de Tancredi, personagem do romance O Leopardo, de GiuseppeTomasi, príncipe de Lampedusa, para explicar o momento atual no país: "Algumas coisas precisam mudar para continuar as mesmas". Foi trágico.
A fala, por certo citada de cor, levou o renomado articulista a corromper brutalmente suas próprias ideias. A concluir pelo que significariam as palavras de Tancredi, tal como foram citadas pelo colunista da Folha, o governo de Temer em nada representaria os avanços em que Gaspari se apoia para fazer a defesa do impeachment da presidente. Antes pelo contrário, o que dá a ver a paixão antipetista por que orienta sua argumentação. Ato falho? Não sei, mas nada tão perigoso e eticamente questionável do que o discurso de um ex-esquerdista, pelo menos em se tratando do Brasil de hoje. Ferreira Gullar e Roberto Freire que o digam.
Dito isso, reporto-me à correção que gostaria de fazer aqui. As palavras de Tancredi são outras: "Se queremos que fique tudo como está, é preciso que tudo mude". Estão, como disse, na obra máxima do escritor italiano, nascido em Palermo no ano de 1896, e morto em Roma em 1957. Era filho de uma família rica e poderosa da aristocracia siciliana, assim como outro grande nome de sua época, Lucchino Visconti, dos mais prestigiados como grande artista que foi.
Ambos, na arte de elevada qualidade que produziram, guardadas as diferenças naturais  --  um era escritor, o outro cineasta  --, em que pese o fato de terem nascido de famílias nobres, deram a ver em suas obras a expectativa de que as classes trabalhadoras haveriam de romper com as amarras da escravidão. Não à toa, o livro de Lampedusa é com razão comparado a Guerra e Paz, de Tolstói, outro escritor vindo da aristocracia em direção aos humilhados e ofendidos de seu tempo.
O Leopardo, ambientado na Sicília da segunda metade do século XIX, representa a decadência de um grande proprietário de terras, o príncipe Salinas, cuja riqueza se esvai nas mãos de administradores desprovidos de escrúpulos. Mas é o príncipe Tancredi que tem a percepção de que a aristocracia inevitavelmente irá por terra, anunciando com suas palavras o surgimento de uma sociedade mais igualitária e livre, a chegada do povo ao poder como algo previsível. Deveria, pois, ser este o sentido do que disse, na contramão do que fazem jornalistas comprometidos com a legitimação de um golpe que tira do povo as suas conquistas.
Lampedusa, que não estaria vivo quando da publicação do romance, escrevera, ainda, Contos e Lições sobre Sthendal, também publicados postumamente. Seu principal livro, por sinal, seria transformado num clássico do cinema pelas mãos de Luchino Visconti. Tancredi, o príncipe citado por Gaspari, interpretado à perfeição por Alain Delon. Suas palavras, todavia, não se confirmariam: tudo continuaria como antes, apenas assegurados os privilégios dos mais afortunados. Como sempre foi.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
           

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