Ainda sobre o Amor

"Pode-se amar alguém por tantos anos sem ser correspondido?", leitora indaga por e-mail acerca de crônica que publiquei neste espaço. Reportava-me a um amigo que casou pela segunda vez com a mesma mulher depois de dez anos separados. O caso não me parece tão incomum. A propósito, li esta semana A Natureza do Amor, da psicanalista italiana Donatella Marizziti, que recomendo para aqueles que buscam a resposta para uma das perguntas mais recorrentes na vida de homens e mulheres: por que eu amo?

Mas, como atender à curiosidade da leitora a partir das pesquisas da estudiosa italiana? Bem, para ela, no que tão-somente reafirma a opinião de outros tantos pesquisadores, o apaixonamento não parece prolongar-se por um tempo superior a três anos, mas o amor, que tem por essência o apego, sim. Mesmo quando não se tem o objeto amado, o que me parece relevante na perspectiva da questão levantada. Assim, pode-se amar, pode-se manter acesa a chama do amor por toda a vida. Diz ela: - "[...] seria importante não confundir o apaixonamento com o amor, por que 'eu te amo' não quer dizer apenas 'estou atraído a você como a nenhum outro', mas também quer dizer sei como você é, e mesmo assim você me faz bem." O livro traz, dessa forma, respostas interessantes sobre questões que todo amante quer ver esclarecidas: o amor que a mulher sente é diferente do amor que o homem sente? A atração masculina é diferente da atração feminina? O impulso sexual é diferente entre homem e mulher?

Como um apaixonado incorrigível pela grande literatura, a indagação da leitora levou-me a reler O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel García Márquez. Mais que isso, a assistir à belíssima adaptação de Mike Newell para o cinema. O que isto tem a ver? Tudo. Trata-se, em essência, da história real de Gabriel Elígio García por Luiza Márquez, pai e mãe do escritor colombiano. Ou, mais precisamente, do amor do poeta e violinista Florentino Ariza por Fermina Daza. O roteiro é simples, mas a história em si é arrebatadora: Florentino Ariza apaixona-se por Fermina Daza, mas o pai desta, a exemplo do coronel Nicolas, sogro do romancista, não aceita o relacionamento e manda a filha para o interior. Fermina casa-se com o médico Juvenal Urbino. Decorridos mais de cinquenta anos, durante o velório de Urbino, Florentino reafirma seu amor: - "Esperei 52 anos, quatro meses e dez dias para dizer que a amo!"

Se o livro dispensa comentários, posto que se trata supostamente do romance insuperável de Márquez, superior mesmo ao clássico Cem Anos de Solidão, o filme é também um épico não menos arrebatador. No elenco, Javier Barden, que compôs à perfeição a personagem central da obra, além de Giovanna Mezzagiorno, numa interpretação tocante da bela Fermina Daza, e, no seu primeiro filme em língua inglesa e num papel secundário, a nossa Fernanda Montenegro, que encanta como mãe de Florentino Ariza.

Ah, leitora, acho que a sua pergunta, como se vê, tem resposta no plano da realidade e da ficção. Como no caso desse livro encantador de Gabriel García Márquez. O amor, sua potência, a sua inelutabilidade, bem como os sofrimentos e tormentas que pode desencadear, como nos lembra, também, a psicanalista italiana. Não deixe de ler.

2 comentários:

  1. Você sempre generoso com o amor verdadeiro... mas, será que ainda existem homens assim, como a personagem do filme? Rs!!! Brincadeira, seu texto, como já lhe disse tantas vezes, é show. E anda 'craque' em coração feminino! + rsrs!!!

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  2. Olá, leitora querida! Obrigado pelo carinho e pelo comentário "procedente" sobre o coração. Rsrs!!!
    Álder

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