As Mãos

Como tenho escrito recorrentemente sobre relacionamentos, tema o mais das vezes de interesse do público feminino, vira e mexe recebo e-mails ou telefonemas comentando textos aqui publicados. Desta feita, vem um 'protesto' curioso: - "Sua crônica faz a apologia do amor não-correspondido [sic]! Não gostei, embora o filme seja de fato muito bonito." A leitora refere-se ao texto da semana passada, Ainda sobre o amor, em que 'exalto' a beleza do amor de Florentino Ariza por Fermina Daza, no livro de Gabriel García Márquez. Indignação à parte, o que respeito intransigentemente, leitora, ainda me permita citar uma frase antológica do cinema: - "Só há um tipo de amor que dura: o não correspondido."

Trata-se de uma fala de Jodie Foster em Neblima e Sombras, de inícios dos anos 90. Sem querer polemizar, mas já o fazendo, como diria o Jô, reconheço ter dado razões para o protesto da leitora, embora não tivesse sido esta a minha intenção. É fato, no entanto, que a literatura e o cinema têm explorado à exaustão o amor infeliz, bem como a música popular brasileira. A propósito, observe-se o que canta o cancioneiro romântico. É fossa pura, tema em que se notabilizam os mais renomados compositores do país, de Duran a Chico Buarque, para não falar de Roberto Carlos e Herivelto Martins.

Dia desses, por conta de um outro texto em que discorri sobre o amor cortês, conversávamos entre amigos e alguém levantou a questão: - "O problema é que o apaixonado jamais admite que o seu amor não é correspondido." Perfeito. Foi aí que um outro amigo tentou se impor: - "É só olhar nos olhos e sabe-se se o amor é sincero." Balela. A mulher, e o homem também, revelam-se pelas mãos. É no movimento das mãos, na forma como essa linguagem se expressa que se sabe se ele ou ela está ou não varado de paixão. Em tempo, ocorre-me lembrar um texto maravilhoso de Stefan Sweig no clássico 24 horas na vida de uma mulher. Obra-prima, perfeição:

- "[...] duas mãos como nunca vira, direita e esquerda entrelaçadas crispadamente como animais encarniçados, que se esticavam e agarravam numa tamanha tensão acumulada que os nós dos dedos estalavam com aquele ruído seco de uma noz partida." E é no mesmo belíssimo livro do escritor vienense que se encontra a revelação: "[...] o rosto como a parte mais visível de sua natureza, esquecem as mãos, e esquecem que há pessoas que observam unicamente as mãos, adivinhando nelas tudo o que em cima os lábios sorridentes e os olhares intencionalmente indiferentes querem ocultar."

Bem, leitora, divaguei demais. É a paixão pela palavra que me levou a isso, mas ainda seja tolerante e tire de Sweig a bela lição, afinal, como no belíssimo 24 horas na vida de uma mulher, o relacionamento amoroso é um jogo: - "[...] nem lhe posso descrever quantos milhares de tipos de mãos existem no jogo [...], mãos nervosas e trêmulas de unhas pálidas que mal se atrevem [...], mãos nobres e vulgares, brutais e tímidas, astutas e hesitantes - mas cada uma com um efeito diferente, pois cada uma desses pares de mãos expressa uma vida especial..." E a idade, diga-se mais. No caso, as mãos expressavam outros sentimentos, e o amor era correspondido. Temporariamente, que tudo passa.

2 comentários:

  1. O texto continua maravilhoso, mas a foto (ah, a foto) é de 'enlouquecer'! É o cronista mais lindo do momento!!! Rs! E as mãos de que você fala na crônica... Suas mãos, nossa!!! Essas mãos, parecem tudo saber!!!
    V.L.

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  2. Assim, cara leitora (conheço?), fiquei sem lugar para colocar "as mãos". Obrigado pela visita ao blog. Com carinho,
    Álder

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