Pimenta na Boca

A revista IstoÉ, desta semana, traz artigo do cantor e compositor Zeca Baleiro sobre a excêntrica lei Pimenta na Boca, que proíbe palavrões nos estádios de futebol da Paraíba. Sinceramente, desconhecia a existência de tão estaparfúdia medida.

O fato faz-me recordar um dos poucos momentos de intolerância do mais poético romancista brasileiro de todos os tempos, Jorge Amado, que, irritado com o purismo de um gramático de Salvador, que assinava críticas mordazes contra o uso do palavrão pelo autor de Tieta do Agreste, respondeu, no referido romance: - "Querem abolir da literatura brasileira as palavras que conseguem exprimir com exatidão, vigor e poesia, todo o cheiro, o sabor, a ternura, a perfeição, a eternidade: xoxota, xibiu e boceta, por exemplo."

Não ignoro com isso que o uso das palavras seja uma questão relevante num país que atravessa histórica dificuldade para estabelecer parâmetros mais civilizados e cordiais de convivência. Talvez por isso tenha eu mesmo uma preocupação reconhecida na utilização da linguagem com que torno públicas minhas ideias, mesmo nos casos em que o 'politicamente correto' torna menos espontânea a comunicação entre as pessoas, como me parece ocorrer em relação ao negro e ao deficiente, que devem ser tratados como afrobrasileiro e portador de deficiência (visual, auditiva e múltipla), respectivamente. Acho que aí entra uma questão de maior significado, como não camuflar ou desprezar as diferenças.

Em se tratando da esdrúxula lei paraibana, contudo, a coisa é mesmo inaceitável, bem ao gosto do 'baixo clero' das câmaras municipais, assembleias legislativas e do Congresso Nacional, onde são aprovadas leis absolutamente inócuas e sem nenhum sentido. Como não vou a estádios, no que me diz respeito, considero impensável não dizer palavrões diante da tevê sempre que um chute de um atacante do Botafogo 'tira tinta do travessão'. Ou quando o mais elogiado profissional de que se tem notícia, o juiz de futebol, agora só comparado ao político, deixa de marcar um pênalte em favor do glorioso de General Severiano.

O palavrão, em certas circunstãncias, não serve apenas para diminuir a pressão interior sempre que nos sentimos ameçados ou frustrados em uma dada situação, o que pode evitar muitas vezes atos, estes sim, intolerantes e agressivos. Muitas vezes a palavra de baixo calão, como se dizia antigamente, é dita com o cheiro e a ternura de que nos fala o escritor baiano. Nada tão carinhoso do que o fdp dito ao amigo que se reencontra depois de um longo tempo. O palavrão traduz com a exata intensidade aquilo que se sente nessas ocasiões.

O puritanismo de fachada da lei paraibana oculta questões muito mais significativas daquilo que deve nortear a busca da paz nos estádios, na contramão do que torna São Paulo, por exemplo, sob este aspecto, o mais delinquente estado brasileiro. Se "[...] o cuidado com as palavras faz parte da busca por patamares mais civilizados e inteligentes de convivência entre os seres humanos", como afirma Rodrigo Mendes, que preside importante Ong de inclusão no campo da arte e da educação, a excentricidade da lei Pimenta na Boca enseja uma curiosa reflexão em torno da espontaneidade e do bom humor como alternativas de ação contra a intransigência e a intolerância. Além de ser uma aleivosia, claro, contra o torcedor paraibano.

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