Simplesmente Complicado

Dia desses escrevi sobre um amigo que reencontrara a ex decorridos dez anos desde a separação. O texto suscitou comentários pessimistas de alguns leitores, céticos em torno da possibilidade de que esse amigo e a ex - e atual mulher - sejam felizes. Reproduzo aqui dois desses depoimentos: - "Cristal que se quebra jamais terá conserto!" [sic]; - "Não se ama a mesma pessoa duas vezes!", diz uma outra leitora. A polêmica deita raízes desde tempos que já vão longe. É possível voltarmos a amar a mesma pessoa que um dia amamos e de quem, por alguma razão, nos separamos? Creio que sim,embora o caso em questão envolva um homem que, segundo ele mesmo afirma, jamais deixou de amar a então ex-mulher. E ela, ainda o amava ou voltará a amar depois do reencontro?, é o que todos haverão de perguntar.

Como a arte imita a vida, semana que passou, por coincidência, vou com a namorada assistir ao filme Simplesmente Complicado, a mais recente produção da diretora Nancy Meyers. O roteiro, bem na linha do que tem sido recorrente na obra de Meyers, explora os relacionamentos amorosos: Jane, interpretada à perfeição por Meryl Streep, é trocada pelo marido, Jake (Alec Baldwin), por uma mulher com a metade de sua idade, de resto um problema por demais comum na vida dos casais. O filme ganha densidade, contudo, pela forma com que a roteirista cria uma situação não muito comum: Separados há dez anos, como no caso do amigo da minha crônica, Jake e Jane encontram-se na festa de formatura de um dos filhos. Depois de uns uísques, os dois terminam na cama e, curioso, Jake, numa comparação ao contrário, descobre na ex o encanto e a espirituosidade que faltam à nova mulher, apesar de muito mais jovem e bonita. Tem início uma comédia romântica muitíssimo interessante, em que pese a leveza do roteiro de Nancy Meyers.

O reencontro perdura, Jane parece também apaixonada por Jake. Parece, uma vez que um terceiro surge na vida de Jane, um arquiteto contratado por ela e interpretado por Steve Martin. Aqui, por fim, colocam-se as questões levantadas acima. Afinal, pode-se amar duas vezes a mesma pessoa? Existe, de fato, a possibilidade de ex-casados serem felizes numa segunda tentativa? A concluir pelo que mostra o filme, não. Jake descobre-se (re)apaixonado por Jane, mas esta, a princípio empolgada com o reencontro, conclui que não é mais ele o homem capaz de fazê-la feliz. Opta em ficar com seu arquiteto, a quem decepcionara ao ser flagrada em intimidades com o ex. Perdoada, embora o roteiro apenas insinue o desfecho do romance, Jane parece agora a caminho de sua felicidade conjugal.

Pelo sim, pelo não, o que se pode concluir da história criada por Nancy Meyers, que vem apaixonando plateias mundo afora, é que o flashback, para usar de uma expressão em voga hoje em dia, está cada vez mais comum. Exatamente como ocorreu a M., o amigo de que trata a minha crônica. Na contramão do que expõe Simplesmente Complicado, que se (re)apaixonem e sejam felizes. Para sempre.

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