Ensaios de Amor

Considero Alain de Botton uma das maiores revelações do romance moderno. Dele, havia lido O Movimento Romântico, entre os dois ou três já traduzidos para o português, mas só agora li o seu livro de estréia, Ensaios de Amor, com que me deliciei no final de semana. Botton nasceu na Suiça, em 1969, mas mora em Londres e seu nome figura como uma das maiores promessas da literatura inglesa da atualidade. Suas histórias giram invariavelmente em torno dos relacionamentos e percorrem a trajetória que todos fazemos entre o surgimento das grandes paixões, sua evolução e sua morte. O estilo é leve, sua prosa envolvente e os enredos estão sempre marcados por reflexões que assentam-se em diferentes campos do saber, como a filosofia, a antropologia, a literatura, a mitologia e a psicanálise.

Em Ensaios de Amor, vamos deparar com a história de amor, narrada em primeira pessoa, envolvendo um homem, de quem sequer sabemos o nome, e Chloe, por quem se apaixona perdidamente: - "E foi por sentir que éramos tão certos um para o outro (ela não só completava minhas frases, ela completava minha vida) que fui incapaz de considerar a ideia de que conhecer Chloe havia sido uma simples coincidência." O livro vai expondo a complexidade das relações amorosas e não surpreende que explore os caminhos e descaminhos que todos os amantes quase sempre haverão de trilhar um dia. O narrador e Chloe vivem momentos de intensa entrega, são felizes, brigam e separam-se quando ela se apaixona por Will e ele, o narrador, inicia o doloroso périplo entre a desilusão e a felicididade de uma nova paixão.

Tudo, no entanto, analisado com o olhar sensível e inteligente de um escritor original e muito divertido: - "O anseio por um destino não é nenhuma parte mais forte do que em nossa vida romântica. Por tantas vezes forçados a dividir nossa cama com aqueles que não têm acesso à nossa alma, não podemos ser perdoados se acreditarmos [...] que estamos destinados a um dia encontrar o homem e a mulher de nossos sonhos?" Bravo, Botton. A reflexão, se parece óbvia demais para constituir uma novidade sobre essa busca que move a vida de todos nós, vem com a força das percepções mais surpreendentes, invade os nossos espaços interiores vazios e atenua as nossas mais recorrentes inquietações sobre o tema.

O capítulo que intitula Elipse, por exemplo, chega a ser desconcertante e faz todo leitor ver-se na angústia que vive o narrador ao separar-se da mulher amada: - "Com sua partida, todo desejo de viver no presente havia ido embora. Eu vivia na nostalgia, ou seja, com referências constantes à minha vida com ela." E, mais adiante, "A dificuldade de esquecê-la era composta pela sobrevivência de muitas coisas do mundo exterior que havíamos partilhado, e às quais ela ainda estava ligada. Em pé na minha cozinha, a chaleira podia subitamente liberar a lembrança de Chloe enchendo-a, um tubo de pasta de tomate numa prateleira de supermercado poderia, por uma forma bizarra de associação, me lembrar de compras semelhantes meses antes."

Depois de fazer a lenta e sofrida travessia, registrada pela fina compreensão dos sentimentos vividos pelo narrador, Botton descreve uma das sensações mais contraditórias dos que vivem esta angustiante experiência: saber-se libertando-se da obsessiva recordação, dialeticamente causa ao amante desiludido uma nova dor, a de saber que o esquecimento do outro é o rompimento do último vínculo com o objeto amado.

O romance tem um final tocante. O narrador, finalmente livre da saudade, conhece outra pessoa, convida-a "para jantar na semana seguinte, e simplesmente pensar nela começou a provocar tremores pela região que os poetas chamam de coração, tremores que eu sabia que só podiam significar uma coisa: que mais uma vez eu havia começado a me apaixonar." Um livro mais que interessante. Recomendo.

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