Arrependimento ou demência?

Para quem se empavona quando instado a falar do seu passado como presidente, as declarações registradas em diário por Fernando Henrique Cardoso não são lá muito abonadoras. Estão em livro que chega às livrarias no fim do mês, mas em parte já conhecidas desde a última edição da revista Piauí. As declarações resultam de gravações feitas pelo próprio FHC, indo de banalidades que apenas evidenciam a sua vaidade doentia a desabafos que deixam ver em que medida o seu governo esteve atolado em práticas hoje condenadas pelo ex-presidente. Vejamos algumas delas:
 
Afagando o ego
Hoje fui também ao lançamento do programa de telecomunicações do Serjão, tudo bem, fiz um discurso aplaudidíssimo, falei com força sobre as questões brasileiras.
Administrando ilícitos
A suposição imediata de muitos, inclusive do Serra, é que foi um dos diretores do Banco Central que vazou. Eu disse ao Gustavo Loyola: "Como é possível que isso tenha saído?" [...] Todo mundo sabe que todo mundo recebeu. [...] E de fato houve esse vazamento, que é grave, no Banco Central.
Manipulando lideranças no Congresso 
Está tudo acertado. Com Sarney, mais com Luís Eduardo do que com Sarney, mas sem problemas. Maciel calmo, apesar de toda a boataria que menciona o seu nome.
Impedindo a instalação de CPI
O Marco conversou com ele e, até segunda prova, Sarney estaria disposto a certa cooperação para pôr um ponto final da CPI. [...] Além disso, a CPI põe em instabilidade o sistema financeiro e põe em risco o Real.
Acobertando fraudes
Veja quanta dificuldade. Por trás, o Sarney disse ao Jorge Bornhausen que a Receita está em cima do Jader, eu não sabia, e do Gilberto Miranda, que isso está pondo mal todo mundo e que ele próprio, quando eu era ministro da Fazenda, teve que pagar 800 mil reais à Receita. [...] O Gilberto Miranda falou com o Eduardo Jorge que, ou se manda parar a fiscalização em cima dele, ou ele põe fogo no circo, vai dizer tudo que sabe etc. etc.
Revelando sua desfaçatez
Nós temos que parar com isso. Vai dar uma confusão grande. É preciso acabar logo com essa história de CPI e depois dar uma demonstração de congraçamento por causa de nossas posições institucionais.
Apelando junto à base de sustentação ao governo
Argumentei que não, que estava fazendo um apelo à maioria, apelo aos partidos que me apoiam, que, como a CPI era política, eu estava querendo uma definição a meu favor, e sem pedir nada ao PT nem ao PDT. Estou simplesmente pedindo à maioria que me apoia.
Fazendo conchavos com Maluf
Expliquei ao Maluf minha posição sobre a reeleição, ele é candidato a presidente da República. Me tratou com gentileza e cordialidade e, no fim, disse que não ia me atrapalhar, mas que não podia me ajudar na questão da Previdência, porque foi chamado de ladrão.
Falando sobre a imprensa e o Brasil da época
A imprensa praticamente já se desinteressou das reformas, só está interessada mesmo em demonstrar que está tudo errado. Este é o Brasil de hoje [1996], onde a modernização se faz com a podridão, com a velhacaria, com o tradicionalismo, o qual na verdade ainda pesa muitíssimo.
Reportando-se ao atual presidente da Câmara dos Deputados
O Eduardo Cunha foi presidente da Telerj, nós o tiramos de lá porque ele tinha trapalhadas, ele veio da época do Collor.
Avaliando o PSDB em tom brincalhão
Eles sabem disso, mas choram do mesmo jeito. Até brinquei com o Cristovam, que era o muro das lamentações o que eles estavam fazendo lá, e que quem gosta de muro é tucano.
 
Diários da Presidência, vol. I, reúne mais de 40 horas de gravação. O ex-presidente fala, ainda, de como articulou com a Globo, com a Folha de S. Paulo e com o jornal O Estado de São Paulo a fim de poupar a imagem do seu governo e formar opinião positiva sobre suas ações como presidente da República. Arrependimento ou demência?
 
 
 
           

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