Gostinho do velho francês

Construí minhas bases estético-cinematográficas a partir da França, nomeadamente dos filmes da Nouvelle Vague que até agora são mesmo uma de minhas maiores paixões. Nada a ver com o filme sobre o qual teço na coluna de hoje rápidas considerações, Os Olhos Amarelos dos Crocodilos, de Cécile Telerman, um dos três que consegui ver no último Festival Varilux (os outros foram Samba e Que Mal Fiz a Deus?, ambos superiores ao filme de Telerman). 
 
Longe disso, que a realizadora francesa prende-se estruturalmente à narrativa clássica americana, de cujas proposições nunca consegue se desvencilhar por completo, mesmo quando a câmera mostra-se mais solta e a escolha do enquadre, aqui e além, desobedece à gramática do estilo hollywoodiano mais tradicional.
 
Então, por que a referência a um cinema reconhecidamente autoral quanto o francês dos anos 60 para falar desse banal Os Olhos Amarelos do Crocodilo? Justifico-me: mesmo quando se mostra obediente aos procedimentos clássicos, a exemplo do terceiro filme de Telerman, a cinematografia francesa consegue manter-se uma oitava acima das convenções americanas. Neste caso, o realce fica por conta do enredo, bem na linha do que têm feito os franceses nos últimos anos, como veremos.
 
A trama, plasmada timidamente no romance homônimo de Katherine Pancol, gira em torno das contradições comportamentais que envolvem duas irmãs, Josephine (Julie Depardieu, filha de Gerard), símbolo da mulher divorciada bem comportada e discreta que recomeça a vida ao lado de um homem mais jovem, e Iris (Emmanuele Béart), mãe pouco dedicada, interesseira e inescrupulosa, bem ao jeito das tantas que excedem nos meios sociais dominantes.
 
É com base no abismo das diferenças que separam as duas irmãs, que Telerman sustenta-se ao longo de todo o filme, contando em seu favor o fato de conseguir prender a atenção do espectador e proporcionar-lhe uma experiência em alguma medida catártica de conflitos tão recorrentes no mundo atual.
 
O filme ganha maior densidade dramática quando Iris, na pretensão de pousar de escritora, pactua com Josephine a escritura de uma livro ambientado na Idade Média. É aí que deparamos com o leitmotiv que constituirá a linha de força da realização de Céline Telerman, um retrato vivo do drama feminino hodierno com seus conflitos e sonhos não raro frustrados de felicidade na profissão e no amor. Mas o que está por trás desse sonho? Com a palavra as mulheres.
 
Nada que reedite Godard ou Truffaut, nem mesmo o Lelouche da fase imatura, ou mesmo Chabrol, tampouco Rohmer. Mas se pode perceber por trás da câmera uma diretora sensível e elegante, cujo pecado maior reside na lentidão com que liberta os primeiros fios de sua teia analítica sobre dramas que os "turcos" parisienses souberam à perfeição explorar.
 
Impossível desmerecer, contudo, a direção de elenco, com destaque para as interpretações seguras de Depardieu e Béart, esta em curva ascendente como atriz e como mulher de beleza desconcertante na maior parte de suas aparições no filme. Por seus defeitos perfeitamente aceitáveis para o que parece ser mesmo uma questão de escolha de Cécile Telerman, mais que pela presença de qualidades inegáveis em alguns momentos do filme, Os Olhos Amarelos do Crocodilo merece ser visto. Quando menos, pelo gostinho do velho drama francês.
              
           

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