Pele do Tempo

                                                                                                            Por Álder Teixeira*
 
Sempre que deparo com a dificuldade de discutir com alunos o que há de licencioso na Arte Contemporânea, nos limites do que se fez no Brasil nos últimos 30 anos, alguns nomes me ocorrem como exemplo de que nem tudo está perdido em termos estéticos. É verdade que alguns desses, tendo já nos deixado, reúnem uma obra já muito sedimentada do ponto de vista analítico, com destaque para criadores da estatura de Hélio Oiticica e Fayga Ostrower. Outros, por estarem em plena vitalidade produtiva, continuam a impor à chamada crítica especializada o desafio de tentar desvendar o que pulsa de mais original e consistente sob o ponto de vista da linguagem. Isso, mesmo quando o artista ou a artista já conquistou o reconhecimento e o prestígio internacional, como é o caso de Adriana Varejão, sobre quem me proponho tecer aqui rápidas considerações a propósito da exposição que inaugurou esta semana na Universidade de Fortaleza.
 
Com o apropriadíssimo título "Pele do Tempo", a mostra arregimenta 32 peças da artista carioca, nascida em 1964; a primeira datada de 1992, a mais atual de 2014. O conjunto não poderia ser melhor escolhido, posto que constitui uma 'narrativa' por demais representativa das diferentes fases de um dos nomes mais viscerais do que se convencionou chamar de arte contemporânea no Brasil.
 
Diante dele, o visitante dá de encontro com uma variada abordagem temática e formal, do perfume barroco de primeira hora ao tropicalismo inquietante da segunda fase, da impactante pesquisa sobre a interioridade corporal, em que sobressaem os registros do canibalismo ingênuo e do esquartejamento repulsivo, recorrente em momentos de sua trajetória, à poesia de diferentes temporalidades que são, supostamente, o carro-chefe de sua produção mais recente.
 
Na contramão do que revelou em entrevista recente, há qualquer coisa de discursivo em Adriana Varejão que coloca o seu olhar estético em sintonia com o que existe de mais significativo nas pesquisas intersemióticas. Dos materiais utilizados, azulejos, polímero, madeira e poliuretano, resina, gesso, além da matéria prima mais convencional, da paleta propriamente dita, sem esquecer a visada denunciadora e inconformada de algumas de nossas maiores contradições enquanto Nação, projeta-se uma densidade simbólica desconcertante, que nos faz pensar como poucos nomes da arte contemporânea foram capazes de fazer.
 
O espaço de representação explorado por Adriana Varejão rompe, assim, conceitualmente, com as fronteiras reducionistas das diferentes linguagens. Tem equivalente, guardadas as proporções, nas pesquisas cinematográficas de um Godard, ou teatrais de um Grotowski, para ser mais ousado em meus registros de percepção. A sua obra "fala" não apenas com os elementos das linguagens pictural e escultórica, que a princípio parecem convidar o espectador a uma experiência estética convencional. Não. Aqui, depara-se com uma fenomenologia estética que leva à sensação de movimento, advinda essa sensação do volutear das ondas dos mares da azulejaria, dos cabelos eriçados das sereias, do figurativismo retorcido de toda ordem, da embriaguez orgiástica que emana de pratos imensos e paredes , por exemplo, lembrando intencionalmente os desenhos de Rafael Bordallo (1846-1905).
 
Quando debato com alunos os excessos do que se convencionou chamar de Arte Contemporânea, dizia eu, é natural que me ocorra citar alguns artistas que foram além da simples transgressão; que o fizeram pelo absoluto domínio dos meios de expressão, não pela falta desse domínio; pelo modo como concebem e realizam sua arte; pelo senso estético por que orientam a sua trajetória criativa.
 
Não se trata, pois, de manipular rótulos, de estabelecer fronteiras classificatórias, mas de discutir talento, qualidade artística rigorosamente falando. Se arte contemporânea é o que se deve entender por uma arte capaz de suplantar limites, de ir além da aplicação servil de regras e procedimentos, de normas e princípios, da utilização de meios tradicionalmente palmilhados, em nada me constrange dizer que a arte contemporânea brasileira é digna de figurar no circuito da grande arte universal. Adriana Varejão é, nesse contexto, uma artista diferenciada, cuja obra alcança o mais elevado nível de diversidade vocabular e sentido poético. Sua exposição em Fortaleza coloca a capital cearense, em definitivo, no circuito nacional da grande arte. Imperdível.
 
*Doutor em Artes pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais
 
 
  
 
 
 
 
            
           

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