A mulher segundo Noel

Entre um vinho e outro, na aprazível casa de Ticiana Fiuza, na Taíba, Cesar Rossas e eu nos damos a uma curiosa pendenga sobre música popular brasileira: qual o ponto de vista do eu-lírico na letra de Último Desejo, o famigerado sucesso de Noel Rosa?
 
Agarrando-se ao verso "eu não mereço a comida/que você pagou pra mim", o meu contendor afirma tratar-se de uma mulher. Defendo que se trata de ponto de vista masculino, posto que é recorrente na poesia de Noel a assumida posição do amante malandro, para quem ser sustentado pela companheira nada depõe contra a sua masculinidade.
 
Essa situação era recorrente nos meios boêmios do Rio de Janeiro da década de trinta, na linha do que se pode ver com frequência no cancioneiro romântico da época ou da poesia que tem por cenário a boemia carioca de então. Chico Buarque e sua Ópera do Malandro que não me deixem mentir.
 
Para dirimir qualquer dúvida, é bastante lembrar que Último Desejo foi composta em 1937, quando Noel, tuberculose avançada, a escreveu para Ceci, Juraci Correia de Moraes, bailarina de cabaré por quem o autor nutria irrefreável paixão. Dizem alguns historiadores que a música foi uma espécie de despedida de Noel em relação a Ceci, a cujas mãos fez chegar a composição através de Vadico, um músico paulista e amigo comum. Noel Rosa morreria pouco depois, sem praticamente compor qualquer coisa mais.
 
Segundo o historiador Ary Vasconcellos, em entrevista para a revista "Fairplay", Ceci teria recebido a letra junto com a notícia da morte de Noel. Para ele, Vadico, o também compositor a quem Noel confiara o envio da 'despedida', teria feito o seguinte comentário: "Acho que ele te castigou um pouco neste samba, Ceci".
 
Por curioso, no Rio de Janeiro dos anos trinta era comum a mulher trabalhar fora de casa, não raro sustentando a família. O próprio Noel faria esse registro em outras de suas maiores composições. Em Três Apitos, por exemplo, o homem se derrama diante da indiferença da mulher, que prioriza o apito da fábrica de tecidos em que trabalha à buzina do carro em que a espera tomado de desejo: "Você que atende ao apito/De uma chaminé de barro/Por que não atende ao grito tão aflito/Da buzina do meu carro?"
 
Noel (ou o eu-lírico da letra, para ser mais preciso) vai mais longe no seu clamor: "Sou do sereno/Poeta muito soturno/Vou virar guarda noturno/E você sabe porque/Mas você não sabe/Que enquanto você faz pano/Faço junto do piano/Estes versos pra você".
 
E arremata, não sem tornar explícito o seu ciúme: "Nos meus olhos você vê/Que eu sofro cruelmente/Com ciúmes do gerente impertinente/Que dá ordens a você".

Noel Rosa, com justiça, é considerado o maior nome da música popular brasileira da Era de Ouro da MPB (1930-1945). Como nenhum outro, compôs em versos a crônica da sociedade carioca dos anos 20 e 30. Na contramão do que pareceria lógico, foi um branco de classe média que subiu o morro para 'viver' o samba. Largara o terceiro ano de medicina para se tornar um dos ícones do cancioneiro popular e morrer aos 26 anos depois de compor algo em torno de 250 músicas. Fenômeno. 
 
 
 
 
 
 
 

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