É tudo verdade

Quarta-feira 6, os meios cinematográficos do mundo inteiro celebrarão os 100 anos de Orson Welles. Trata-se do reconhecimento definitivo do maior gênio da sétima arte, aquele a quem se deve atribuir, com justeza, as contribuições mais importantes do que se considera a modernidade na cinematografia. E não me refiro ao canônico Cidadão Kane, cujos procedimentos estéticos praticamente dividiram a história do cinema em dois momentos. Estou falando de quase tudo que fez seu diretor desde o clássico de 1941, incluindo o segundo filme, Soberba, severamente modificado por seu produtor sem o consentimento de Welles.
 
A propósito, para os cearenses, o nome de Orson Welles deveria ser objeto das mais elevadas homenagens. Esclareço: em 1942, estando Soberba em processo de montagem, mesmo na ausência do seu diretor, contratado pela RKO para realizar um documentário sobre o carnaval carioca, viajou para o Brasil esse monstro sagrado do cinema. O projeto fazia parte de um amplo programa de aproximação dos Estados Unidos com países da América Latina, embutido aí o jogo de interesses imperialistas que sempre perpassam a política de relações internacionais do grande império para com o resto do mundo, nomeadamente, como à época, os países de terceiro mundo.
 
O tiro sairia pela culatra. Em que pese tratar-se de um nacionalista assumido, Orson Welles era antes de tudo um artista dotado de afiado senso de responsabilidade para com tudo o que fazia em termos profissionais. Da ideia tortuosa de explorar as excentricidades culturais brasileiras pelo viés ideológico, na linha do que sempre se fez sobre o país, carnaval e futebol à frente, Welles já daria às primeiras tomadas um fio condutor honesto e profundamente crítico, o que ensejaria a interrupção do projeto e a inflexível decisão do estúdio americano de sustar o envio dos recursos inicialmente previstos.
 
Entre um contato e outro com os produtores, na empenhada motivação de dar continuidade ao filme, eis que Orson Welles toma conhecimento de um fato pitoresco divulgado nos principais jornais americanos: quatro pescadores cearenses haviam se lançado ao mar, numa simples jangada, de Fortaleza ao Rio de Janeiro, a fim de falar com o presidente Getúlio Vargas e tentar sensibilizá-lo para a difícil realidade dos pescadores nordestinos, desprovidos de quaisquer direitos trabalhistas ou qualquer amparo de ordem legal.
 
Sem dispor de recursos os mais básicos de navegação, num tipo de odisseia moderna, decorridos 61 dias de viagem, Manuel Olímpio Meira (Jacaré), Raimundo Correia Lima (Tatá), Manuel Pereira da Silva (Mané Preto) e Jerônimo André de Souza (Mestre Jerônimo) percorreram, debaixo das mais impensáveis peripécias, os 2.381 km que separam Fortaleza do Rio de Janeiro, sem uma bússola ou carta náutica, sendo recebidos festivamente no Rio, e, em palácio, pelo presidente da República.
 
Impressionado com o feito desses heróis anônimos, Orson Welles toma um avião da força aérea brasileira e bate com os pés no Ceará a fim de rodar Four men on a raft, o que pensava vir a ser um dos episódios do filme sobre o Brasil. Aqui, gravou parte do material, e, no Rio de Janeiro, a sequência da chegada dos quatro heróis cearenses à então capital do país. Eis que o destino prepara o pior: nas águas de São Conrado, a lancha que rebocava a jangada dos quatro cearenses, durante as filmagens, numa manobra infeliz, faz virar a embarcação e lança às águas geladas seus tripulantes. Três deles seriam resgatados, mas Jacaré, o líder do grupo, jamais viria a ser encontrado.
 
Muitos anos depois, latas com parte do filme são encontradas num depósito de um estúdio americano, do que resultaria o incompleto mas sublime It's all true, que revi esta semana com meus alunos da cadeira de História do Cinema do curso de Artes do IFCE. A biografia do mais importante nome do cinema de todos os tempos, quase em silêncio, passou pelo Ceará. Até onde sei, é lamentável, nada de considerável se programou para assinalar o seu centenário.
 
 

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