A paixão da poesia e a Globo

A semana começou triste. Morreu Eduardo Galeano, o escritor uruguaio amado pelos de minha geração. Sua morte envolve algo de simbólico, quando parece agonizar, também, uma certa esquerda para a qual foi sempre uma referência: aquela que acreditou na possibilidade de realizar sonhos sem abrir mão dos valores morais; que lutou com as armas da poesia e do conhecimento em defesa do ideal de uma sociedade mais justa e mais livre. Deixa-nos, que nem tudo está perdido, textos que alimentam de maneira saudável o espírito de todos nós, a exemplo de A função da Arte, o pequeno-grande conto que lhes reproduzo abaixo. Está em O livro dos abraços.

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
-- Me ajuda a olhar!


 Nunca li este conto sem marejar os olhos, sem um arrepio qualquer dos pelos. Ele me faz reanimar a velha utopia, a minha crença num mundo em que os homens possam finalmente entender que somos todos irmãos, um mundo em que a beleza do mar seja suficiente para nos abrir os olhos, e nos ajudar a olhar a vida sem o embaço da arrogância e do egoísmo. Descansa em paz, poeta.
Dedicado a estudar a construção do discurso, assisto pela tevê à cobertura da Globo News do protesto do dia 12. A câmera, que qualquer manual de jornalismo televisivo recomenda mostrar-se dinâmica em reportagens do gênero, fica estática por 15 minutos num plano que enquadra de frente um caminhão em que se lê a frase "Fora, Dilma". Foi assim por quase toda a manhã.

Penso na Escola de Frankfurt e crio relações com o que tem feito a nossa "melhor" imprensa ao longo desses muitos meses  --  e sempre! Como guardam atualidade na compreensão e na análise dos acontecimentos contemporâneos os textos de Adorno, Horkheimer, Marcuse e Benjamin. O problema não está na manipulação dos fatos, de resto um ingrediente próprio da mídia, o que faz parte da correlação de forças ideológicas e do jogo de interesses (83% dos entrevistados afirmaram ter votado em Aécio Neves). O que chama a atenção é que não ocorra ao espectador questionar a veracidade do que, como no caso, ouve e vê sobre o que se passa no país hoje, a tal manifestação por exemplo.

Adorno tem para isso uma explicação clara como o sol da manhã: na indústria cultural o espectador é incapaz de separar a ilusão da realidade. O mundo com que depara diante da tela da tevê é por definição verdadeiro, o discurso prodigioso da imagem é a expressão da mais inquestionável verdade: o Brasil grita pela destituição de Dilma. Em estudo seminal sobre o pensador alemão, diz Sergio Paulo Rouanet: "Se substituirmos a expressão 'propaganda fascista' [...], não teríamos dificuldade em usar esse exemplo para mostrar como a indústria cultural condiciona seus destinatários para a credulidade, tornando-os receptivos a mensagens destinadas a produzir ou reforçar consenso".

Confirmados os números, 3 milhões de pessoas foram às ruas pedir o impeachment da presidente: faltam 500 mil para cobrir apenas a diferença, nas eleições, entre ela e seu concorrente, o tucano Aécio Neves (54,5 milhões e 51 milhões, respectivamente). Segundo o Datafolha, 63% querem o impedimento. Desses, um terço não sabe quem ocupará o lugar de Dilma e mais da metade não sabe quem é Michel Temer. Para a câmera da Globo (e os riquinhos do país, claro), contudo, o Brasil inteiro grita "Fora, Dilma!". Risível, não fosse trágico.

 

 
 
 
 
 
 
 
 

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