Hipocrisia é o nome

Considerar a presidente Dilma responsável por todos os males do país parece vir se tornando, cada vez mais, a tendência dos brasileiros. No caso da corrupção, ninguém alardeia, por exemplo, que estão envolvidos nos maiores escândalos alguns dos mais importantes nomes do grande empresariado tupiniquim, aqueles 5% que detêm algo em torno dos 70% de toda a riqueza nacional. Não. Na perspectiva do senso comum, parte expressiva dos que vão às ruas gritar "Fora, Dilma!", é a presidente que deve responder pela roubalheira que, todos sabem, viceja nos quatro cantos do país desde sempre. E a massa, curioso, como na famosa fala de Spencer Tracy, em Fúria, de Fritz Lang, "não pensa" e se deixa enredar nas malhas golpistas de nossa melhor elite.
 
Por falar em elite, corre na internet uma campanha dos riquinhos desse imenso Brasil (Fortaleza, por exemplo) contra o beijo de Fernanda Montenegro em Babilônia, bem como o meio repleto de 'maldades' que circunda a personagem já nos primeiros capítulos da novela da Globo. Essa gente, que se alimentou através dos tempos do jornalismo tendencioso da emissora, que cresceu em sintonia com a principal empresa de um dos grupos de comunicação mais corruptos da história, agora se indigna contra o que considera "baixaria e um desserviço à família brasileira"  --  homossexualismo da personagem de nossa maior atriz, por exemplo.
 
E pensar que tal indignação parte das mesmas vozes que, sem nenhum prurido, mandam, em praça pública, a presidente "tomar no c...", seria engraçado não fosse ridículo. Gente que faz da palavra "democracia" um dos seus gritos de guerra, mas que na maior sem-cerimônia pede a volta dos militares ao poder. Gente que, com raríssimas exceções, construiu sua riqueza espoliando a dignidade humana, agora posa de indignada contra os malfeitos da classe política, e, ato-contínuo, restaura suas energias com salgados e doces na mais elegante pâtisserie da cidade e vai embora sem pagar a conta, como divulgado Brasil afora pouco depois do evento do dia 15.
 
Para essa gente, ocorre-me sugerir a leitura do livro sexto das Confissões, não as de Santo Agostinho, que seria cruel, mas as de Jean-Jacques Rousseau, que, ao imaginar-se com uma doença mortal, quis saber o que poderia realizar de melhor no intervalo que lhe restava até à morte  --  e dedicou-se a ler a grande literatura, como a do democrata Voltaire. Talvez Victor Hugo, e seu maravilhoso O último dia de um condenado.
 
Para os que fingem não entender o que estou dizendo, lá está uma advertência contra a estupidez da arrogância e da prepotência: Les hommes sont tous condamnés à mort avec des sursis indefinis. Quem sabe a leitura do romântico francês, lembrando que somos todos mortais, ajude a lhes diminuir a distância entre o que apregoam em praça pública e o que praticam na sequência do seu apregoar.
 
 
 
 
 
 
           

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