O homem que engarrafava nuvens

A atriz Denise Dummont me telefona de Nova York, através da prima Marlene Teixeira. Estava dando os primeiros passos para a realização de um projeto que tinha por objetivo resgatar a memória artística do pai, Humberto Teixeira. Dois ou três dias depois, encontramo-nos na sede do então Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará. De cara, surpreende-me o número de participantes do evento, muito maior do que pensava pudesse ser. Foi uma noite de reencontro com conterrâneos, parentes e admiradores do autor de Asa Branca. Lembro que fui convidado a falar em nome da família e da colônia iguatuense ali presentes. Na ocasião, Denise e eu trocamos um farto material sobre Humberto, que, na mesma madrugada (já era tarde, quando nos despedimos), seria furtado do meu carro, para minha tristeza e espanto.

Meses depois, Marlene e eu estreitamos contato com Denise. Ela viria a Fortaleza e Iguatu para rodar algumas sequências de O homem que engarrafava nuvens, como intitulara o filme a partir de uma frase do pai em entrevista ao historiador Nirez. Denise queria um depoimento meu para o filme. Na época, infelizmente, não pude recebê-la, encontrado-me em viagem para fora do estado. Marlene e Euriquinho Teixeira o fizeram e ambos, tratados com especial carinho por Denise, estão no filme de Lírio Ferreira, o resultado final do projeto levado a efeito com brilhantismo pela atriz, e a que -- inexplicável! -- só ontem pude assistir em casa de Deusdedith Teixeira Neto, que reuniu familiares para uma sessão do filme regada a bom uísque. Fiquei encantado.

Trata-se do premiadíssimo documentário que chega em nova tiragem às principais lojas do ramo. Um clássico do gênero, que, em pouco mais de duas horas, reverencia a obra do ilustre filho de Iguatu e resgata a memória de um gênio esquecido. O filme conta com a participação, depoimentos e interpretações marcantes, de grandes nomes da música popular brasileira, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Lenine, Gal Costa, Maria Bethânia, Raul Seixas, Luiz Gonzaga, Bebel Gilberto e David Byrne, que canta Asa Branca em inglês e dá sobre a música de Humberto Teixeira um dos mais relevantes depoimentos sobre o letrista e compositor iguatuense. Imperdível.

Embora tenha acompanhado com interesse o belíssimo projeto de Denise Dummont, do nascedouro à conclusão, confesso: só agora pude de fato dimensionar com exatidão quem foi e o que realmente representou a figura de Humberto Teixeira para a cultura musical brasileira. Tomando por base as declarações de Gilberto Gil, Caetano Veloso e, mesmo, David Byrne, não é muito dizer que Humberto Teixeira é para a MPB como um outro João Gilberto. É comprar o DVD e conferir se exagero, minimamente que seja.

Como nada é, todavia, perfeito, faço uma restrição: a sequência do filme em que Margarida Jatobá expõe questões de foro íntimo de sua vida ao lado de Humberto, é de uma deselegância inaceitável e poderia ter sido evitada sem qualquer prejuízo para o produto final de O homem que engarrafava nuvens. Antes pelo contrário, reportar-se à traição ao marido da forma como o faz, cedendo à curiosidade 'encenada' de Denise Dummont, afirmando que ao lado da genialidade do artista havia o ciúme e o conservadorismo do interiorano, é detalhe que nada acrescenta ao extraordinário trabalho de Lírio Ferreira. O filme como um todo, no entanto, é excepcional e justifica os prêmios nacionais e internacionais que arrebatou. Vale conferir.

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