sexta-feira, 7 de setembro de 2018

O caminho é outro

Entusiasta da direita, amigo cruza comigo numa livraria da cidade e, sem mais sem menos, formula a capciosa questão: --- "O que me diz do atentado a Bolsonaro?", ao que respondo, à Nelson Rodrigues, com a serenidade de um pintassilgo: "O mesmo que senti em março, quando dois ônibus da caravana Lula foram atingidos por tiros de fuzil no Paraná, um deles no meio da comitiva, posição em que tradicionalmente se encontra o ex-presidente nessas viagens: indignação, pacifista e democrata que sou!"

A exatos trinta dias da eleição, o Brasil reedita páginas vergonhosas de sua História, bem na linha do que ocorreu à vereadora Marielle Franco há cinco meses, no Rio de Janeiro, por razões comprovadamente políticas. Sem esquecer o longínquo ano de 1930, no atentado que resultou na morte de João Pessoa, candidato a vice-presidente de Getúlio Vargas na chapa derrotada por Júlio Prestes, meses antes; nem o tiro da rua Tonelero, em 1954, desferido contra Carlos Lacerda; nem o ônibus que acertou em cheio Juscelino Kubitschek para matá-lo, em agosto de 1976 etc.

Grotesco e inaceitável, sob qualquer aspecto, o atentado a Jair Bolsonaro, cujos desdobramentos, infelizmente, poderão ser desastrosos para o país, fere fundo a alma da democracia brasileira, já claudicante em face da judicialização da política e da prática desavergonhada do partidarismo sub-reptício, cujas trágicas consequências já são, por essas razões, inevitáveis, a exemplo de tirar da eleição a única liderança realmente popular do país.

Não importa se Jair Bolsonaro tem se mostrado, ao longo de sua vida pública (e mais contundentemente nos últimos anos), um fanático defensor da violência como forma de combater a violência; se faz proselitismo em favor do armamento legalizado; se propaga sem cerimônia a volta do autoritarismo, se é favorável à tortura, se é homofóbico, racista e um recorrente agressor de mulheres ou se paga com o dinheiro público quem lhe dá de beber aos cães de estimação em sua fazenda, nem mesmo se professa ter a intenção de "fuzilar petistas", como tem afirmado aqui e além etc.

Não, nesta hora nada disso importa, reitero. Conta em seu favor que é sagrado o direito de expor suas ideias e de professá-las com o poder de conquistar adeptos na proporção estarrecedora com que tem feito. Se são abomináveis essas ideias, e são, o caminho para combatê-las é outro: o debate político racional, fundamentado em razões menos emocionais e mais isentas; no exame criterioso do que resultará de nossas escolhas, e na compreensão de que a violência, a intranquilidade galopante que parece tomar conta do país, tem suas raízes presas a um modelo de sociedade desigual e injusto, verdadeiro pai da miséria e da revolta capaz de levar um desesperado a buscar na força bruta e no gesto covarde a solução para os seus problemas e do país. 

 

 

 

 

 

   

 

 

 

   

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Voto em Fernando Haddad

Atendendo a uma curiosa provocação da editoria de política do Segunda Opinião, materializo na coluna de hoje, quarta-feira 5 de setembro de 2018, minha declaração convicta de voto para presidente da República em 7 de outubro. Antes, por razões que presumo óbvias, devo dizer que a minha vontade, frustrada pelos artifícios mais despudorados levados a efeito pelo Judiciário brasileiro, conluiado com parte expressiva da perversa elite empresarial e do Congresso Nacional, era votar em Luiz Inácio Lula da Silva, a exemplo dos 40% dos eleitores que o elegeriam em primeiro turno.

Afastada a possibilidade de fazê-lo, por força da desfaçatez, do autoritarismo, do atraso e do cabotinismo que impera no cenário político do país, votarei em Fernando Haddad, pelas razões que exponho nos tópicos abaixo:

  1. Porque tenho memória para recordar os avanços sociais verificados durante os governos do Partido dos Trabalhadores, a exemplo dos programas Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos, Brasil Alfabetizado e Educação de Jovens e Adultos, ProUni, entre tantos outros;
  2. Porque tenho memória para recordar a queda nos índices de violência no país, o sorriso nos rosto das crianças, dos jovens, dos trabalhadores e dos idosos nesses muitos anos;
  3. Porque tenho memória para recordar como se vestiam e calçavam os brasileiros menos aquinhoados durante esses 13 anos de governo do Partido dos Trabalhadores, como se divertiam, como frequentavam os shoppings, as praias, os estádios, a cujos lugares iam, muitas vezes, dirigindo seus próprios carros, como aos aeroportos em que recepcionavam seus familiares distantes ou iam ao seu encontro ou a um simples passeio com seus filhos etc.;
  4. Porque tenho memória para recordar como foram por terra, nesses muitos anos de PT, os índices de desemprego, a falta de perspectiva para os pequenos e médios empresários, o número dos que sonhavam em montar seus próprios negócios e não encontravam nos programas de governos anteriores o incentivo de que precisavam, os juros bancários acessíveis, a oferta gratuita de assistência técnica qualificada etc.;
  5. Porque tenho memória para recordar a satisfação dos brasileiros, nomeadamente os menos favorecidos, vítimas históricas do talvez ou do quem sabe, com a sua qualidade de vida, e o otimismo com que enxergavam o porvir, orgulhosos de um país respeitado lá fora;
  6. Porque tenho olhos para ver a corrupção desenfreada e a inexistência de punição para os que integram o governo golpista de Miguel Temer e seus apaniguados, o alto empresariado que financiou o golpe, bem como os partidos à direita do espectro político, a exemplo do PSDB;
  7. Porque tenho olhos para ver o que fez e faz o juiz Sérgio Moro a fim de servir, desavergonhadamente, à elite branca e financeira do país, e os serviços que presta de forma inconfessável ao império do Capitalismo internacional;
  8. Porque tenho olhos para ver os riscos concretos de retrocesso político, o uso criminoso de mecanismos os mais diversos contra a Democracia e o Estado de Direito no Brasil;
  9. Porque tenho olhos para ver e não comungo com a homofobia, a misoginia, o racismo, a intolerância à diversidade racial, religiosa e cultural, e a prática da violência, mesmo sob o pretexto impudente de combater o crime;
  10. E, finalmente, por que tenho olhos para ver que Luiz Inácio Lula da Silva é um preso político, e que inexistem provas, pálidas que sejam, para ter sido condenado em qualquer instância, com a única e odienta motivação de ser afastado do processo sucessório presidencial, na contramão do que é o desejo crescente da gigantesca maioria dos brasileiros.  
Por essas razões, e por reconhecer sua qualidade humana, intelectual e política, ao lado da comprovada competência como Ministro da Educação, durante sete anos, e como prefeito de São Paulo, é que torno público o meu voto para presidente em 2018: voto em Fernando Haddad.  
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