O frio espetáculo

Diante de crimes hediondos, assaltos revoltantes, seguidos de morte da vítima, práticas impensáveis da violência divulgadas todos os dias nos jornais, é comum ocorrer-nos de sentenciar em favor da pena de morte como saída para a banalização e o embrutecimento da existência humana.
 
Dizemos isso, é óbvio, movidos pela indignação que toma conta de nós diante de tantas atrocidades e, por certo, muito mais, pela impotência dos governantes em face dos casos que se multiplicam com o passar do tempo. Esquecemo-nos, no calor das circunstâncias, de que a vida é um bem precioso, o mais precioso deles, mesmo quando se trata de homens e mulheres que se encontram à margem do que chamamos civilidade, o conjunto de formalidades, palavras e atos que os cidadãos adotam entre si para expressar respeito e consideração uns pelos outros.
 
Por instantes, deixamo-nos dominar pela revolta interior e negamos os valores mais sublimes da convivência, o mínimo senso de tolerância e percepção das raízes de todo o mal que parece ocupar os principais espaços dos noticiários do rádio e da tevê.
 
Faço essa reflexão a poucas horas da execução do brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira, 53, na Indonésia, condenado à pena máxima por tentar entrar naquele país com 13 quilos de cocaína dentro de canos de uma asa delta. Isso aconteceu em 2004, no aeroporto de Jacarta  --  e Marco foi condenado em 2005.
 
Desde então, ele e sua família vivem o que parecia, apenas, um pesadelo e que, há coisa de duas semanas, se confirmou como realidade. Não haveria novos trâmites, todos os passos do processo trilhados.
 
Segundo as leis da Indonésia, somente a clemência poderia poupar a vida de Marco Archer. Sua família nutria restos de esperança, havia precedentes: em 2012, o então presidente indonésio Susilo Bambang comutara a pena de Deni Setia Maharwa para prisão perpétua. Deni cometera o mesmo crime.
 
Ontem, sexta-feira, 16, a presidente Dilma Rousseff, depois de seguidas tentativas nos últimos dias, conseguiu finalmente falar por telefone com o presidente Joko Widodo. Expressou ter consciência da gravidade do crime cometido por Marco Archer e o seu respeito pela soberania da Indonésia e do que estabelece o seu sistema judiciário. Mas lhe telefonava para pedir, como presidente e como mãe, clemência para o brasileiro. Fazia-o, segundo divulgação oficial, por razões eminentemente humanitárias. Teve o seu pedido afirmativamente negado.
 
Segundo Marco Aurélio Garcia, assessor especial da presidência, "não houve sensibilidade por parte do governo da Indonésia". O fato, como fez questão de evidenciar, "pode dificultar a partir de agora as relações entre os dois países". As medidas legais da diplomacia haviam sido tomadas ao longo de todos esses anos.
 
Domingo à noite, tardezinha aqui no Brasil, em lugar secreto, 12 homens apontarão seus fuzis para Marco Archer Cardoso Moreira. Apenas três das doze armas estarão carregadas com munição de verdade. Os outros com balas de festim, alegorizando a cerimônia como num quadro de Goya. Cientes do frio espetáculo, o que temos a dizer sobre a pena de morte? 
 
 
 
 
           

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