Para o poeta Fernando Pessoa a morte era como a "curva da estrada". Não o fim, mas uma passagem, um ponto no percurso da vida. Morrer, "apenas não ser mais visto".
Hoje, 26 de novembro, faz 31 anos desde que morreu Roberto Costa. Sobre ele, escrevi em livro de memórias o texto abaixo.
Os primeiros anos de minha vida, dividi-os entre as casas de papai e tio Nelzinho. Não raro, passava meses sem conviver com meus irmãos, por conta de viagens que fazia com o meu 'outro pai e a minha outra mãe', que eram Julieta Barros Costa, ou, simplesmente, Titieta, como a chamava amorosamente, e meu tio.
Cresci sendo educado, parte por meus pais, parte por esses tios maravilhosos, que, assim, naturalmente, passariam a ocupar no meu coração quase o mesmo espaço que meus pais de sangue. Amei-os tão fervorosamente como se fosse dado a alguém o milagre nunca conseguido de se ter dois pais e duas mães, igualmente amáveis e zelosos.
Mas foi a convivência com esse ser humano diferenciado que me causaria as maiores impressões, o jeito alegre de viver, a inteligência privilegiada, a sensibilidade de uma alma superior, a capacidade de lidar com as adversidades sem franzir a testa ou demonstrar qualquer irritabilidade. O sorriso sempre aberto.
Esses e outros incontáveis atributos, estavam ali, à minha frente, constituindo um exemplo a ser seguido, cedo ou tarde.
Com o tempo, na medida em que fui amadurecendo, a minha convivência com Roberto foi se tornando mais íntima, mais frequente. Saíamos juntos, ele, Edilmo e eu, mal começava o dia, até a Varzinha, onde, agrônomos, os dois administravam os algodoais e o rebanho bovino. Ficávamos ali até por volta das dez, onze horas, quando de volta à cidade, acompanhava-os de volta à casa.
Nos finais de semana, ao cair da tarde, ia com esses irmãos siameses (Roberto e Edilmo andavam quase sempre juntos) ao encontro de um grande e invariável grupo de amigos, para um drinque, e jogar conversa fora. Acho que, mais novo e condicionado a conviver com esses homens feitos, por isso mesmo fui amadurecendo precocemente. Participava das conversas, discutia os mesmos assuntos e tinha, guardadas as pequenas diferenças, os mesmos gostos para quase tudo.
Mais tarde, viria a atividade política. Roberto vereador, vice-prefeito, deputado estadual, prefeito, uma liderança leve e destituída dos achaques tão comuns aos políticos em geral, como a hipocrisia, a vocação para prometer e nunca cumprir, a arrogância e a prepotência, ia, passo a passo, constituindo uma referência que eu, sem qualquer esforço para tanto, passava a imitar, num tipo de espelhamento que me fazia crescer como gente. Hoje, quando paro para escrever estas memórias, a imagem de Roberto parece estar aqui, ao alcance de um simples olhar, e, sem esforço, posso ouvir a voz ligeiramente trêmula desse primo querido a quem devo tanto pelo que sou.
É compreensível que, pela visibilidade social e, sobretudo, pelo sucesso na atividade política, Roberto despertasse algum desconforto a muita gente, coisa que a sua morte e o reconhecimento, um tanto tardio, de suas imensas qualidades de homem poriam por terra.
Em vida, aqui e acolá, vez e outra, foi retaliado e objeto da maledicência de uns poucos, incompreendido, injustiçado, sem, contudo, jamais perder a serenidade ou alimentar qualquer sentimento negativo ou revanchista. Um homem bom, superior a qualquer maldade ou inveja de que fosse alvo.
Acima de tudo, porém, Roberto soube granjear amigos como ninguém. E era um líder nato, uma figura humana para a qual, onde quer que estivesse, todos os olhares naturalmente se voltavam. Tinha algo abençoado nos seus gestos mais desinteressados, uma radiação benigna em sua palavra.
Com o passar do tempo, cada vez mais, fico convencido de que Roberto era uma dessas pessoas que vêm ao mundo para cumprir uma missão, para dar com a sua vida um exemplo de complacência permanente, e boa vontade no trato com o próximo, a quem veem como um irmão.
Não bastassem essas qualidades absolutamente necessárias, de natureza íntima do ser humano, Roberto estava invariavelmente bem-humorado e tinha uma presença de espírito desconcertante. Eram alegres os momentos de entretenimento ao seu lado, tinha sempre uma piada nova, uma improvisação brincalhona, uma provocação jocosa com um e outro, um jeito de fazer festa das mínimas coisas.
Na atividade política, onde se notabilizaria pela capacidade de negociação, pela disposição para o diálogo e pela correção de propósitos, foi um visionário e um construtor de sonhos. Para ele, pude testemunhar de perto, nada era maior que o interesse coletivo, o bem-estar do povo. Suas ideias eram radicalmente assentadas na vontade da maioria, na satisfação das aspirações alheias, desde que, para torná-las realidade, jamais tivesse de abrir mão dos seus princípios, dos valores morais por que orientava suas decisões.
Sem dúvida, foi, à larga, um dos melhores prefeitos de Iguatu, em que pese o tempo mínimo de sua administração.
Como vereador e líder de bancada na Câmara, só uma vez me indispus com Roberto. Coisas da atividade política. Fui favorável a uma emenda a um projeto de aumento de salário dos servidores municipais, apresentada por um vereador de oposição, e, considerando a repercussão aos cofres públicos superiores às possibilidades reais, Roberto vetou-a. Deixei a liderança da bancada e 'cruzei' os braços ante os projetos de sua administração. E as matérias do seu interesse começaram a ser derrubadas pela oposição.
Dois ou três meses depois, por volta de onze horas, meia-noite, pouco mais ou menos, Roberto bate à porta de minha casa. Estava com o então vice-prefeito Marcelo Sobreira, exultantes os dois. A primeira pesquisa de opinião, uma novidade à época, sobre a administração Iguatu acima de tudo, o lema do seu governo, indicava uma aprovação enorme, com números nunca obtidos por qualquer prefeito naquele tempo.
Fomos para a varanda de casa, abri um uísque e varamos a madrugada jogando conversa fora. Acabara aquilo que, em verdade, nunca existira, a suposta inimizade entre nós. Nas sessões seguintes, os projetos de Roberto voltariam a ser aprovados. Havia mais que o meu voto pessoal, que jamais negara ao que fosse bom para a cidade, havia o meu empenho, o discurso relativamente hábil e convincente, o jeito de tratar com os opositores, àquela altura, hoje vejo com clareza, assimilado do próprio convívio com Roberto.
Na noite do sábado, véspera do acidente trágico em que viria a falecer, Roberto veio a ter comigo. Eu jantava com Sulene, minha mulher à época, num restaurante da cidade. Falou-me das visitas que fizera a alguns vereadores. Nutria a vontade de me tornar presidente da Câmera.
Não o fez. Sorrateira e implacável, "A indesejada das gentes"* esperava-o à beira do caminho.
*A expressão é do poeta Manuel Bandeira, e se refere à Morte.
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