Por Alder Teixeira
Como a produção do cinema contemporâneo tem suas bases estéticas fincadas no uso ilimitado de recursos das mais avançadas tecnologias, dentre as quais sobressai em nível impensável de possibilidades a IA, é natural que surja nos meios cinematográficos propriamente ditos, dos amantes do cinema e da própria crítica especializada, uma indagação que a um só tempo traduz preocupação e algum nível de decepção e revolta: “O cinema está morto?”.
Sem ter a intenção de responder a tal questionamento, o que seria pretensioso de minha parte, uma vez que ainda é cedo para esmiuçar e mensurar a real repercussão dessa realidade sobre o que tradicionalmente se considerou a sétima arte*, ou seja, a forma de expressão artística que traz dentro de si as seis outras (a arquitetura, a escultura, a pintura, a música, a literatura e a dança), mas com a simples motivação de contribuir para o debate, levanto aqui algumas reflexões:
De que cinema estamos falando? Dos primeiros registros realizados pelos irmãos Lumière, e exibidos em 28 de dezembro de 1895, no Salon Indien do Grand Café, em Paris, a partir de um aparelho chamado cinematógrafo? Nessa perspectiva, por que não lembrar o que fizeram, antes, outros inventores, a exemplo de Thomas Edison, com o seu cinetoscópio, ainda que voltado para gravar e exibir imagens individualmente, isto é, para uma só pessoa de cada vez? Ou dos primeiros trabalhos de Georges Méliès, marco do que se pode definir como surgimento da narrativa visual, com seus truques e seus fascinantes efeitos de ilusionismo? Ou do polêmico “O Nascimento de uma Nação”, já na primeira década do século XX?
Estamos falando do cinema incorretamente identificado como “cinema mudo”, na linha do que fizeram Buster Keaton e Charlie Chaplin, ainda hoje capazes de encantar numerosas plateias com sua habilidade física e seu timing cômico, a exemplo do que se pode ver em “A General” (1926) e “Tempos Modernos” (1936)? Do cinema falado, como se convencionou chamar o cinema a partir de 1927, com “O Cantor de Jazz”, estrelado pelo notável Al Jolson. Ou, para ser mais rigoroso, desde “As Luzes de Nova York, em julho de 1928?
Estamos falando do dito “cinema clássico” norte-americano? Do metacinema, estilo de produção que lança mão da metalinguagem e se debruça sobre o próprio fazer cinematográfico, expondo sua natureza fictícia ou intencionalmente dando a ver seu processo de construção, rompendo com a noção teatral da quarta-parede, investindo na quebra da ilusão de realidade e jogando com as convenções da narrativa? Do chamado filme dentro do filme, como fez exemplarmente bem François Truffaut em “A Noite Americana” (1973).
Não será mais recomendável compreender esses diferentes momentos como constitutivos do que se pode estabelecer como a História do Cinema?
A partir do que vem proposto com essas indagações, antecipo o viés pelo qual levanto a presente reflexão, o que me parece mais razoável em termos de compreensão da atual situação do cinema, ou seja, a percepção de que o surgimento da Inteligência Artificial e sua utilização em larga escala no cinema, a partir de agora, deve ser entendido como “pós-cinematográfico”, na perspectiva do que, mal comparando, se verificou no teatro com a noção de pós-dramático: a concepção de uma manifestação cênica em que os elementos da estrutura clássica são rompidos em favor de um teatro performático dissociado do texto. Mantidas as delimitações teóricas, por óbvio, é assim que o teatro dito pós-dramático repensa a utilização dos meios convencionais e lança mão de outras possibilidades técnicas: cria-se um novo espaço, em que estão presentes outros elementos estruturantes da obra teatral e no qual abundam recursos anteriormente estranhos ao fazer teatral. Veem-se em cena equipamentos tradicionalmente ocultados do espectador, telas, câmeras, microfones e impensáveis adereços ou, pelo contrário, o ator e/ou atriz assume a dimensão narrativa em que a realidade se expressa nela e por ela mesma, ainda que revestida de intencional artificialidade.
Nessa direção é que se deve compreender o que, na falta de uma terminologia mais apropriada, ainda, define-se como “pós-cinematográfico” ou pós-cinema: a experiência, produção e consumo de imagens em que os elementos narrativos foram assustadoramente ampliados com os avanços e descobertas da tecnologia: as imagens agora são “pensadas” não mais para o espaço cinematográfico tradicional, mas, além dele, para o streaming (Netflix, Prime Vídeo etc.) e redes sociais, celulares, computadores e outros meios da cultura digital. Nesse cenário de profundas transformações é que o cinema não pode ser definido como historicamente foi.
Essas e outras questões, por cabível, são a meu ver aspectos indispensáveis para que não se cometam equívocos de natureza conceitual e teórica em relação ao cinema, emprestando ao debate uma referência histórica mais bem fundamentada, sem o que estaremos invadindo o escorregadio terreno das subjetivações. Para tanto, assim, é recomendável que se tracem objetivos, que se delimite o campo de pesquisa, que se levantem hipóteses, sob pena de não se chegar a lugar algum sobre uma matéria a um só tempo tão simples e tão complexa, mas certamente desafiadora em todos os sentidos.
Em face da razão deste paper, e nos limites de uma fala sobre o que se convencionou chamar de sétima arte, mesmo sob a provocativa questão de estar o cinema morto ou não, não me cabe ser minimamente conclusivo. É, ao que me parece, como se me fosse dado o direito de responder ao complexo questionamento com outro questionamento, como a cobrar do questionador esclarecimentos sobre aquilo que questiona. Trocadilho à parte, eis a questão.
Se se pensa o cinema como convencionalmente o conhecemos, ainda que pautando a nossa reflexão em “tipos cinematográficos” diferentes, na perspectiva da forma e da expressão, com limitações e possibilidades condizentes com o tempo cronológico de sua produção, sob as diversas tendências e estilos, gostos e expectativas de consumo, mas assentado em características estéticas tradicionalmente definidas com a produção de filmes: os meios, a técnica, a arte e a indústria de criar, registrar e projetar imagens em sequência rápida em uma tela, ocasionando no cérebro humano a ilusão de movimento contínuo, fenômeno otimizado com combinação de outras linguagens, a música, a literatura e as artes cênicas, entre outras, direi que o cinema não morreu, mas teve concluída mais uma de suas fases de evolução.
Por outra, aceitando-se como ilimitadas as possibilidades de fazer filmes, bem na perspectiva dos avanços observados ao longo da história do cinema, mas em escala infinitamente maior, processo que poderá cedo ou tarde prescindir, em parte ou no todo, dos meios historicamente conhecidos, uso de câmeras cinematográficas, atuação de atores e atrizes, recursos de decupagem e edição etc., em favor dos meios da alta tecnologia, CGI e Inteligência Artificial à frente, deve-se falar do surgimento de um outro cinema, ainda quando pensada essa forma de expressão artística para a recepção coletiva, em sala de projeção tal qual a conhecemos hoje e com o emprego de profissionais do cinema tradicional.
Pode-se falar, portanto, de pós-cinema ou cinema pós-cinematográfico, conceito que descreve novas formas de realização e consumo da imagem em movimento e com intenções estéticas. Essa definição, como se vê, vai além dos avanços advindos da tecnologia digital, mera expansão do que ainda se pode considerar cinema, mesmo pensado, como já foi dito, para outros suportes que não os tradicionais: videogames, videoinstalações, internet e, na falta de melhor expressão, o que se costuma definir como realidade virtual: plataformas como celulares, computadores, displays urbanos e equipamentos outros de recepção interativa.
Sem incorrer em conclusões apressadas, e na intenção de tão-somente contribuir para o debate, ouso dizer: o cinema não morreu, mas, por certo, há muito se abriu, no livro de sua história, um novo e complexo capítulo.
*O termo foi cunhado pelo crítico Ricciotto Canuto no Manifesto das Sete Artes, publicado em 1911. Hoje, por óbvio, há de se observar que outras linguagens foram acrescidas a essa relação, a exemplo dos quadrinhos e da chamada Arte Urbana.
Autor do livro "Ingmar Bergman, Estratégias Narrativas", Alder Teixeira é Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Membro da Academia Cearense de Cinema (ACC).
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