quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A pedido

"Toda noite eu arrancava meu coração. Mas ele tornava a crescer."

(O Paciente Inglês)

 
Como ocorre a todo cronista, sento-me diante do computador e paro um instante à procura de um tema para a coluna dessa quinta-feira. Um tanto surpreso, lembro que estamos a poucas horas do novo ano e, como sempre, há no ar uma esperança de que as coisas possam se transformar por completo a partir de agora. Por isso, é natural que a gente faça tantos planos: voltar a ter o peso ideal; economizar uns trocados; fazer a viagem dos sonhos; parar de fumar; ir a São Paulo rever a amiga, o amigo, que há tempo não vemos; o Carnaval em Salvador; ser mais tolerante, mais cavalheiro, mais humano; escrever um novo livro, ou o primeiro, se for o caso; diminuir o uísque, o rum com coca, trocar a cerveja pelo vinho; conhecer o homem, a mulher dos sonhos. E por aí vai.

E, no entanto, mal começam a se passar os dias, e a vida volta a ser a mesma: "Como renunciar a esta picanha!", você diz no churrasco de aniversário do seu melhor amigo; "Um cigarrinho, apenas, não me há de matar!"; e, assim, você vai materializando a contradição, adiando os planos. "Ah, falei com a Roberta ontem, o Chris que venha me ver, afinal, o avião que leva, traz..."; e você foi a Recife, em vez de Salvador; trocou ofensas, no trânsito...; sua estreia como poeta, contista, pode ficar para o próximo ano; como pensar o happy hour sem três ou quatro saideiras?, os cartões do chope já chegando aos céus. E no amor, ela é linda, educada, sincera, mas tem um temperamento...; ele é companheiro, gentil, "imagina, me abre a porta do carro, puxa a cadeira no restaurante, em casa... Um cavalheiro, é romântico, mas tem um ciúme..." E você a deixa por tolice, que existem sete para cada homem. Rompe com ele, e vai tentar com o Maurício, se não der, que venha o Pedro, o João. Em dezembro, lá pela última semana, você está sozinho, sozinha, e diz para a melhor amiga: "No amor, não tenho tido sorte!"

Não há segredos, é fato. Mas que tal pensar um pouco sobre como você tem tocado a vida? Não é preciso que comece o novo ano para organizar certas coisas, enquanto é tempo. Parar de fumar, sim, "agora, que quero respirar bem, dormir melhor, aproveitar o sabor dos alimentos." É tão fácil dizer "por favor", "obrigado", "é possível?", "perdão, o erro foi meu!"... Colocar-se um pouco no lugar do outro, no trânsito, na fila do banco, à porta do elevador; em casa, com quem lhe faz a comida, lhe passa a roupa, cuida do seu jardim.
 
Alteridade, está no dicionário, é qualidade do que é outro, diferente, que se distingue. "A Marina tem esse defeito, mas, que vale isso, se é amorosa, solidária, se faz um amor gostoso, se me respeita, valoriza, me faz crescer como homem, me estende a mão, quando tropeço?" "O ciúme do Lucas é um defeito dele com que aprendi a lidar... Mas como é íntegro, companheiro, que coração possui, quanta honestidade no que diz, no que pensa..." O amor dos sonhos.

Faça diferente no próximo ano, que ele está chegando. Que tal agradecer-Lhe mais, e Lhe pedir menos? Uma missa, de vez em quando, por que não? Relaxe, morra de rir. Ouça mais, fale menos, abra seu coração. Exercite a tolerância, que "outro" quer dizer "diferente". Valorize as pequenas coisas, tente ser mais gentil, chore, se sentir vontade; estenda a mão mais vezes, abrace mais, emocione-se nas despedidas... Cante com o Roberto, queira ter um milhão de amigos. 2015 está chegando ao fim. Foi bom, não foi, poderia ter sido melhor? Vire a página. O coração doeu, teve que arrancá-lo noites a fio? Nada, não. É nova manhã! Tempo aberto para mudanças -- e elas clamam urgência, têm pressa. "A vida não é mais que o ato de ficar parado no ar, antes de mergulhar", diz uma velha canção. Pense nisso, já.

Feliz Ano-Novo!


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

120 anos de Cinema

Hoje, 28 de dezembro, comemoram-se os 120 anos do cinema. Não da invenção tecnológica que permitiu o seu surgimento, ocorrida um pouco antes, mas da primeira sessão, em 1895, no Grand Café do Boulevard des Capucines, em Paris. À frente da empreitada havia dois irmãos, Louis e Auguste Lumière, a quem a história da sétima arte atribui essa que seria uma das maiores conquistas do homem, notadamente daqueles que vivem da Arte ou amam, como eu.
 
Curiosamente, segundo registram os melhores historiadores, coube a Louis Lumière uma das declarações sobre o cinema mais infelizes de que se tem notícia: "Esta é uma invenção sem futuro!", teria afirmado durante o evento. Hoje, para se ter uma noção da tolice que proferira, Star Wars, em cartaz nos cinemas, ultrapassa, na segunda semana de exibição, a casa de um milhão de dólares arrecadados, batendo todos os recordes de bilheteria. Mas muita coisa aconteceu durante esses 120 anos.
 
Comecemos pela primeira sessão. Dez filminhos foram exibidos, dois deles referências obrigatórias para qualquer cinéfilo: A Chegada do Trem à Estação de Ciotat e Saída dos Operários da Usina Lumière. Cinematógrafo era o nome do aparelho que, no começo do cinema, acumulava dupla função, a de máquina de filmar e projetor. Louis e Auguste Lumière, num tipo de ato falho que evidencia a ironia da declaração feita pelo primeiro, recusaram-se a comercializar o invento, embora assediados de perto por Georges Méliès, mágico de prestígio à época a quem caberia, pouco depois, a primeira revolução cinematográfica: Méliès adicionaria ao caráter documental dos primeiros filmes uma sedutora força ficcional, a exemplo do que atestam filmes ainda hoje encantadores, Viagem à Lua, para falar do mais famoso deles.
 
Se aos irmãos franceses coube assinar a poderosa invenção e ao compatriota Georges Méliès imprimir os primeiros procedimentos revolucionários, é a um americano a quem se deve atribuir a descoberta das primeiras estratégias narrativas por que viria se orientar o grande cinema. D. W. Griffith é considerado com justiça o primeiro cineasta de todos os tempos, a quem coube criar uma verdadeira linguagem cinematográfica, estabelecendo as leis mais significativas do cinema clássico.
 
Em O Nascimento de uma Nação (1915), Griiffith inaugura, entre outros recursos estilísticos que permeiam a sétima arte na atualidade, o uso da montagem paralela, o que permitiria a sobreposição de narrativas múltiplas em um mesmo tempo diegético, isto é, dois acontecimentos sendo narrados simultaneamente em lugares diferentes.
 
São clássicos alguns dos filmes que viriam na sequência de O Nascimento de Uma Nação, com justo destaque, por certo, para O Gabinete do Dr. Caligari, de Rober Wiene, e Nosferatu (1922), de Murnau, bem como os filmes de Chaplin, verdadeiras obras-primas do cinema não falado.
 
Como não lembrar, ainda, das contribuições estéticas inovadoras do neorrealismo italiano (filmes rodados na rua, com populares em lugar de atores profissionais e o seu elevado tom denunciador),a partir do obrigatório Roma, Cidade Aberta (1945), de Roberto Rossellini? Da nouvelle vague, francesa, de François Truffaut e Jean-Luc Godard? De filmes absolutamente indispensáveis, como Acossado (1960), verdadeiro marco na história do chamado cinema de autor? Bergman, Fellini, Antonioni, Kurosawa, Glauber, Lang, Kazan... Como esquecê-los?
 
Assim, mesmo numa época dominada pelo blockbuster, os "arrasta quarteirões" pautados pelos recursos da tecnologia pós-moderna, é impossível pensar um mundo sem filmes. Em Fortaleza, Munique, Madri, numa cidadezinha da Rússia, do bairro rico de Nova York ao mais pobre recanto do Irã, que nos daria Abbas Kiarostami, nos lugares mais impensáveis, não surpreende que corações palpitem sob o efeito do sortilégio, da magia, da força lírica de uma arte sublime de ontem e de hoje. Dessa invenção que, na contramão da afirmação irônica de Louis Lumière, há exatos 120 anos, tem seu lugar assegurado no futuro de todas as nações. Brindemos.